Domingo, 29 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO * MATAR O BICHO/ ou ENCHER O BANDULHO,

MATAR O BICHO/ ou ENCHER O BANDULHO,

era um hábito de linguagem das gentes que trabalhavam a terra na Leziria ribatejana, que vinha de gerações. Ainda só tinham passado 30 anos do século XX, já o Zé Pataco (alcunha que lhe vinha de família desde o seu avô; Luis Galricho), tinha grande aversão ao vinho e, não deixava passar a oportunidade para dizer aos filhos - maldito álcool, que tolda a alma e o espirito, causando tantos estragos numa familia.

 Realmente só em dias de festa lá acompanhava com uma bebida espirutuosa, pois o seu mata-bicho era sempre em casa, com uma caneca de café e  um pedaço de chouriço que sobrava da ceia, num naco de pão.

No entanto já chefe de família, na época das vindimas, chegou a trabalhar nos lagares da grande Adega que existiu no Largo dos Combatentes - bem dentro da vila de Salvaterra de Magos e, aí com o seu Adegueiro; Manel da Repolha, aprendeu a fazer o Vinho, Aguardente e Bagaceira. Anos mais tarde, como gostava sempre de aprender mais e melhor, já na sua Calhandra, ali para os lados do Tejo, plantou uma Ginjeira, e todos os anos colhia as ginjas para fazer em casa uma deliciosa bebida - Ginja com elas!

As arrelias que passou por causa das tabernas, era coisa que o acompanhava e, se lembrava bem daquele tempo, poucos anos tinham passado depois que terminou a guerra mundial, havia poucas tabernas em Salvaterra, podiam-se contar pelos dedos de uma mão. O João da Pança, o Vitorino Marreco, a Anunciada e o Artur Xavier. O homem rural, ao sair de casa, bebia nas tabernas da vila, o seu Mata-bicho - um copo de Aguardente, pois o Abafado era coisa que pesava no bolso.

Aquela hora da madrugada estavam em Jejum, tinham-se levantado com os primeiros cantos dos Galos (5 da matina), pois o almoço no campo era já pelas 10 da manhã, depois de umas 4 horas horas de bem cavar a terra.

- Os grupos juntavam-se na ponte da vala real, antes de iniciarem a caminhada a pé de uma boa hora de marcha, o trabalho começava ao nascer do sol, e terminava depois deste se por, lá para os lados da serra de Sintra. Como diziam!

 

42366742_1976409269101665_2103747888650649600_n.jpNo cais, existiam a taberna do Miguel, e uma outra pequena, da família de Artur Pinto. Esta, que mal dava para meia dúzia de pessoas em pé, por vezes era aí o seu ultimo Mata-bicho, e se trocavam a saudação de “um Santo Dia” com os Pescadores e Marítimos, que por lá já andavam. De regresso a casa, o luz-fusco já os acompanhava, e alguns que moravam na Azinhaga da vila,depois da ceia, lá davam um salto à taberna do João da Pança,sendo um homem mediado de altura, usava além do um cinto uns suspensórios de tiras de cabedal para segurar as calças - a alcunha, veio-lhe por ter o estômago muito dilatado.

Ali, jogavam uma cartada da bisca, e bebiam um copito. A casa tinha um pequeno pial em pedra à porta, que dava jeito nos dias de verão, para estarem à conversa e fumarem uma cigarrada!

- Alguns esqueciam-se do tempo, e regressavam já com a cabeça a toldar - em casa havia ralhete: a mulher sempre se atrevia a dizer, já vens com o bandulho cheio, e os rapazes sem comer na mesa, porque não há dinheiro para o comprar na loja da Celestina.

 

2 Sem nome.pngO Vitorino Marreco (alcunha desde menino por ter uma anomalia na coluna, primeiro foi aprendiz de alfaiate), era o 7º e último irmão do Ti Toino Pataco. Estava estabelecido, na rua da Farmácia, a sua clientela era mais de tarde e noite, por ali paravam os mestres de oficio, que se entretinham até à hora de curtir o sono. As 12 badaladas se ouviam no sino da torre da Igreja, ali ao lado. Esta taberna - veio mais tarde a ser explorada por Sebastião Cabaço, e ainda por Manuel Nunes, homem conhecido por Manel Renaca.

- Na Taberna da Anunciada, a meio da pequena Azinhaga, no Arneiro da vila, logo ao cair da noite era colocada no portal a lanterna com a vela acesa. Era local de encontro dos homens da urbe - gente dos ofícios e da escrita, por ser sitio mais escondido. para se jogar o chinquilho, no seu quintal (1). O povo rural era quase todo analfabeto.

- A rudeza da vida no campo, iniciada desde menino, a forma de alimentação e o beber sem rega, levava muito homem poucos anos depois de viverem meio século, já serem vistos como gente velha!  - Os campinos, aqueles que andavam guardando os toiros bravos na Leziria, tal como todos os 3 irmãos, filhos de Luiz Galricho (de alcunha o Pataco), era gente que vinham a casa de 15/15 dias,  e já na vila depois do cavalo guardado nas cocheiras da Abegoaria  da casa, passavam pelo escritório do patrão e recebiam a soldada. O barbeiro, era o passo seguinte e não deixavam de passar pela taberna, bebendo o seu copito, mas aí muitas vezes esqueciam-se que tinham uma prole de filhos para alimentar e gastavam um pouco do dinheiro acabado de receber.

 

cAMPINOS.pngIsso acontecia com o Ti, Toino Pataco, o que dava azo ao filho Zé, o mais velho, muitas vezes noite dentro, lá ia buscar o pai à taberna do tio e, daí começou o seu azedume ao vinho.

 O Toino Pataco, era aguardado pela Emília, sua esposa , que vinda da beira ficou por cá, agora rodeada de filhos, mesmo trabalhando no campo tinha em casa, na Rua d`Água, algumas ovelhas, e cabras no quintal, de onde ganhava uns tostões fazendo queijos.

O meu avô paterno, no dobrar do séc. XX, já vivia numa casa abarracada, na estrada do Rego - onde tinha umas cabeças de gado. Das vacas tirava o seu sustento, vendendo leite à garrafa.

Ali, na década de 60 gostava de me contar a sua vivência de campino - recordações que registei (2), mas já pesado de corpo e alma, ainda bebia o seu copito, e quando isso acontecia, ficava toldado, e era de vê-lo, com uma garrafa no alto da cabeça, bem equilibrada, e gaiata de beiços, tentando dançar o fandango, como o fazia em novo, quando manejava bem o pampilho, naquela arte de campino e, procurava os bailes das barroas que vinham fazer as temporadas de trabalho nos campos da Lezíria, ali juntinho à borda d`água. O Ti, Tonho Pataco, fez a última jornada de campo, guardando éguas afilhadas, na Casa Agrícola de Salvaterra, José de Menezes & Irmão.*José Gameiro

O Autor não segue o Acordo Ortográfico de 1990

*****

Textos Apoio: (1) Esta taberna, foi descrita no Conto o” Último Dia do Lobo em Salvaterra”, de José Amaro - década de 30, séc. XX * (2) Livro Pedaços da Tauromaquia na vila de Salvaterra de Magos- Autor

Fotos: 1) Campinos da Casa Agricola Roberto & Roberto, e do Autor 

*José Gameiro

publicado por historiadesalvaterra às 18:14
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