Sábado, 20 de Julho de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO * Matar o Bicho/ ou Encher o Bandulho !

-Eh  home…, já vens na mêma!  – uma tarde e noite dentro na taberna, chegas a casa a toldar da cabeça, e com o bandulho cheio de vinho, at`eimas sempre nisso!

-Aqui tô eu, moidinha de trabalho, à espera do dinheiro da jorna p`ra ir à loja, comprar comida p`rás crianças, e t`ou a aver que ainda ei-de ser velhinha, e continuar agarrada à saia da minha mãe!..

Era o ralhete, que se ouvia, em casa de alguns jornaleiros rurais, que depois da manhã de trabalho no campo, ao sábado, logo se enfiavam da taberna.

Entre os dois conflitos das guerras mundiais do séc. XX, na década de 30, havia poucas tabernas na terra, que se podiam contar pelos dedos de uma mão.

Era um hábito que vinha de gerações, nos jornaleiros que trabalhavam a terra, no campo de Salvaterra de Magos,  e que se notava também no homem dos ofícios, dentro da vila

O João da Pança, a Anunciada, o Zé Luís das Neves, o Vitorino Marreco, e o Artur Xavier, abriam portas aos primeiros sinais da manhã, enquanto o homem rural saia de casa uma ou duas horas  antes do sol nascer (o seu relógio era o cantar dos galos), bebiam o café, muitas vezes feito de cevada/ou chícharo torrado e moído, com um naco de pão barrado de toucinho cozido, que tinha sobrado da ceia.

Muitos deles não deixavam de “matar o bicho” naquelas tabernas, bebendo um copo de aguardente, enquanto o homem urbano só pelas 7 horas começava a movimentar-se nas ruas, e bebia a sua ginja ou abafado. No campo, a hora do almoço era aí pelas 10 horas da manhã,  e o jantar  comia-se por volta das 3 ou 4 horas da tarde. A comida era levada numa pequena caldeira, e aquecida em grupo num brasido de lume.  A despega era sempre já depois do sol posto, havendo trabalhadores, cansados na cava da terra com enxada de lamina larga, não deixavam de olhar de esguelha a luz fusco na serra de Sintra!

-  Alguns ranchos de mulheres e moças, juntavam-se na estrada da Ponte de Pedra, a pé em passo estugado, entravam em caminhos de terra,  do Malagueiro, com os campos dos freires à vista, já perto do Vau. Aqueles que tinha a jorna nas Courelas junto ao Tejo, era na pequena taberna da família de Artur Pinto, que mal dava para meia dúzia de pessoas em pé, para o seu ultimo "mata-bicho", e não deixavam de trocava a saudação de “um Santo Dia” com os Pescadores e Marítimos, que por lá já andavam na faina do cais.

- De regresso a casa, alguns depois da hora da ceia, ainda davam um salto à taberna do João da Pança,  (homem mediano de altura, usava além do um cinto uns suspensórios de tiras de cabedal , por cima do colete para segurar as calças, pois tinha a barriga dilatada - talvez daí a alcunha!), arranjavam parceiros e jogavam uma cartada à bisca, para beberem uns copos de vinho.

Alguns esqueciam-se do tempo, e ao entrarem à porta de casa, já com a cabeça a toldar – lá ouviam da mulher um ralhete: - És sempre a mesma coisa!... Já vens com o bandulho cheio, e eu, sem dinheiro para comprar comida prós rapazes  comerem.

A Taberna do João da Pança, tinha à porta um assento em cimento, do lado da rua da Azinhaga (rua Porfírio Neves da Silva), mesmo em frente à rua dos Quartos, dava jeito nos dias de verão, para estarem à conversa contando umas anedotas.

Antiga Taberna João Pança 2019 .jpg

A Anunciada, tinha porta da sua taberna aberta a meio da azinhaga estreita do Arneiro, e lá se viam misturados, gente rural  com os dos ofícios que, se entretinham a jogar o chinquilho, noite dentro à luz do gasómetro(1).  O José das Neves, estabelecido na esquina da Trav. do Martins, com a rua Direita, esteve poucos anos de porta aberta, mas tinha uma clientela especial, servia de tertúlia onde se discutia os toureiros e cavaleiros, em fama nos cartazes das arenas de Portugal e na vizinha Espanha.

 Foi ali, que em 1919, saiu a ideia da construção da Praça de toiros de Salvaterra de Magos.

*José Gameiro

********

Nota: (1) Esta taberna, foi descrita no Conto o ”Último Dia do Lobo em Salvaterra”, de José Amaro - década de 30, séc. XX

Foto: do Autor @ Casa antiga Taberna do João da Pança

publicado por historiadesalvaterra às 12:03
link | comentar | favorito

.mais sobre o autor

.pesquisar

 

.links

.arquivos

. Fevereiro 2021

. Dezembro 2020

. Setembro 2020

. Julho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Abril 2016

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Março 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Dezembro 2010

. Outubro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Abril 2008

. Dezembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

.tags

. todas as tags

.Fevereiro 2021

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28


blogs SAPO

.subscrever feeds