OS DIAS QUE SE SEGUIRAM AO TERRAMOTO DE 23 DE ABRIL DE 1909
Decorria o ano de 1909, o país ainda se encontrava de luto chorando a morte da família real, vítima do regícidio, ocorrido em Lisboa, na Praça do Comércio, quando regressava de Vila Viçosa, em viagem de comboio.
D. Manuel, que viria a ser chamado de II, filho do rei D.Carlos e D.Carlota, tinha subido ao trono havia pouco tempo quando Portugal foi alertado para uma nova infausta notícia.
No dia 23 de Abril de 1909, eram 5 horas da tarde a terra tremeu no coração do Ribatejo. As vilas de Samora Correia, Benavente e Salvaterra de Magos, acabavam de sofrer uma catástrofe - Um terramoto.
Em Salvaterra de Magos, àquela hora a maioria da população encontrava-se fora das suas casas, nos trabalhos rurais, daí o cataclismo produzir apenas duas mortes e muitos feridos. As casas da vila e até do concelho, ficaram muito danificadas, segundo o relato dos autarcas que, de imediato reuniram para apuramento dos primeiros danos, segundo consta das actas camarárias que registam que os tremores de terra continuaram nos dias seguintes, mas com menor intensidade. Nos dias imediatos, toda uma onde de solidariedade chegou à população de Salvaterra, o mesmo acontecendo com Benavente e Samora.
A autarquia de Salvaterra, desde logo não parou de receber quer telegramas de apoio, quer ofertas da mais variada ordem. A Cruz Vermelha Portuguesa, instalou "barracas" em vários locais da vila, sendo o núcleo mais significativo no Largo do Mártir S.Sebastão ( local onde mais tarde foram construídas uma fonte e uma escola primária) e, onde passa a Av. José Luiz Brito Seabra.
Toda a população desalojada, nesse mesmo dia, já noite dentro, recebeu o apoio do governo, que fez deslocar para o local, uma Guarnição de Soldados do Regimento de Sapadores. À disposição da câmara municipal, foi colocado um contingente de Cavalaria e Infantaria, afim de ser mantida a ordem.
Através do Ministro das Obras Públicas, foi considerado fazer o estudo no local, para a reconstrução das habitações que oferecessem garantias de recuperação e, a demolição total das outras, mesmo pouco danificadas.
No dia 30 de Abril, em virtude do edificio da câmara municipal não oeferecer segurança, a reunião dos autarcas, foi efectuada num celeiro no Largo do Palácio (largo que viria a ser de 5 de Outubro e dos Combatentes).
Nessa reunião, estiveram presentes por convocatória, grande número de cavalheiros, pessoas respeitadas no concelho, afim de darem a sua opinião sobre a catástrofe.
Entre os convocados, encontrava-se o benemérito Gaspar da Costa Ramalho, que foi ouvido com muita atenção, e as suas propostas foram aceites. Da sua iniciativa foi constituída uma Comissão local, onde integrava além dele, o Conde de Mangualde, Luiz Ferreira Roqurette, Porfirio Neves da Silva e Vergílio Roquette Costa, que se responsabilizaram por contactar os jornais e instituições para a angariação de fundos.
Outras resoluções foram tomadas, foi resolvido mandar fazer 18 lanternas, para serem usadas nas zonas da instalação das "barracas" e "tendas", cada uma custou 1.150 réis, verba que foi paga pelo benemérito Gaspar Ramalho.
Em 17 de Junho, contavam-se já instaladas 180 "barracas" das 325 que foram consideradas necessárias. Fazendo face à desgraça que se abateu sobre as 3 povoações vizinhas, logo o governo disponabilizou alguns fundos, cabendo a Salvaterra, a verba de de "CEM CONTOS DE RÉIS", para as primeiras necessidades.
Nos dias seguintes e nas reuniões que iam decorrendo, a câmara e o administrador do concelho; Luiz Filipe Valente, analizaram propostas de ofertas de créditos, muitas delas vindas do estrangeiro, postos à disposição da população salvaterriana.
A 19 de Agosto, foi aceite uma proposta do Oficial que comandava a guarnição que mantinha a lei e a ordem na vila, que a sineta instalada no edificio da câmara, passa-se a dar as horas, em virtude do relógio da torre da Igreja ainda se encontrar avariado.
Assim, o soldado de piquete às instalações municipais, puxava de uma corda, tantas vezes quantos sons horários fossem necessários para completar as horas do dia, prescendido-se de dar as meias horas.
No dia 11 de Novembro, foi autorizado que o entulho da limpeza da Trav. do Martins, fosse colocado nos baldios do antigo moínho de arroz, no valado da vala real. O jornal "O Século" que nas suas páginas tinha aberto uma subscrição pública de donativos, conseguiu que o país se solidariza-se com o sofrimento a que estavam passando as 3 populações vizinhas, dando as verbas reunidas origem à construção de escolas.
Em Salvaterra, a autarquia disponabilizou um terreno que pôs à disposição da Comissão encabeçada por Gaspar Ramalho e lhe entregou o valor de "Cento e sete mil trezentos e noventa e cinco réis", verba que coube à vila.
Em 25 de Dezembro, dia de Natal, houve reunião e foi deliberado mandar reparar o telhado da câmara municipal, bem como enviar para Londres, um telegrama a felicitar , El-Rei D. Manuel II, pela passagem do seu aniversário.
Numa outra reunião da câmara, estiveram presentes os Drs. Augusto de Castro e Annachoreta e Prof. Ginestal Machado, de Santarém que, representando uma comissão daquela cidade vinham trazer o apoio do scalabitanos às vítimas do sísmo.
No início de 1910, D. Manuel veio a Salvaterra, visitar a população e dar-lhes o seu apoio moral, visto que o material, se encarregou o governo. Uma multidão aguardava a chegada do bergantim real, ao cais da vala e, quando desembarcou, uma multidão que o esparava, deu vivas ao rei ..!
O desfile foi feito a pé, a caminho da rua do Calvário, entre alas das entidades oficiais, com o povo atrás, estando muitas mulheres e crianças no botaréu, da rua do Forno de Vidro, aplaudindo o monarca que retribuía com acenos de mão.
Depois de visitar alguns locais onde ainda existiam algumas "barracas e "tendas", houve uma sessão de boas vindas nos paços concelho, sendo-lhe dado conta da situação e como se estava a resolvê-la. Depois de algum descanço na intimidade dos seus mais próximos colaboradores, voltou a Lisboa, pela mesma via, aproveitando a maré cheia.
Nos meses seguintes, a recuperação das casas foi decorrendo e, outras ergueram-se em novas ruas abertas, nos terrenos de currais e celeiros, atrás das ruínas do que foi o paço real de Salvaterra de Magos, até aos grandes barracões das antigas cavalariças.
Naqueles terrenos, foi também aberto um grande hortado para alimentar o povo ( mais tarde murado em volta, e conhecido pela horta do Sopas). Em 7 Outubro, com a implantação do regime republicano em Portugal, é nomeada uma Comissão Administrativa, no concelho constituída por: António Jorge de Carvalho (presidente), José de Vasconcelos, João Ferreira Vasco, Carlos de Novais Rodrigues, Vital Justino (de Muge) e João Pereira Rodrigues (de Marinhais). Para Administrador Interno do concelho, foi nomeado António Marcos da Silva.
Na sua primeira reunião sob o novo regime, os autarcas republicanos, deliberaram aprovar
os requerimentos de "Aforamento", a Luiz Ferreira Roquette, proprietário do "Curral do Concelho" e a António Marcos da Silva, dono de um terreno no "Largo do Cafarro", ambos no terreno de areia em frente ao antigo palácio da falcoaria, onde passava a av. José Luiz Brito Seabra.
Ainda foi aprovado mudar os nomes a algumas ruas da vila; A rua Santo António, passou a Rua Alm. Cândido dos Reis, a a Rua do Pinheiro, para Dr. Miguel Bombarda, a Praça Dr. Oliveira Feijão, para Largo da República, o Largo do Palácio para 5 de Outubro (mais tarde dos Combatentes) e a Rua Porfirio Neves da Silva, para Teófilo Braga, nome que nunca vingou.
A 27 de Outubro de 1910, cerca de 18 meses após o terramoto, começaram os trabalhos de remoção das "barracas" e das "tendas" da CVP, por já não serem necessárias, no Largo 5 de Outubro, Praça da República, Rua do Calvário (Av. Dr. Roberto Ferreira da Fonseca), Rua do Jogo da bola, Canto da Ferrugenta e Largo de S. Sebastião, ficando apenas algumas nas areias do pinhal, atrás do novo cemitério da freguesia.
A grande mancha de pinhal junto à vila, era novo e escasso aqui e ali, indo para sul, passava junto ao "Chaparral do Barão", pelos Foros de Salvaterra a caminho de Coruche.
Tendo sido encontrada roupa nos armazéns da câmara, fruto das ofertas, foi deliberado destribuí-la pela população. Por último, foi tomado conhecimento que, a República do Uruguai, oferecia "duzentas libras" para a construção de uma escola em solidariedade com as povoações que sofreram as terríveis consequências do terramoto.
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Nota: Texto extraído do artigo publicado no JVT, em 27 de Abril de 1995, do autor, e composto segundo os textos das actas a que teve acesso * Fotos: (1) Um grupo de familias desalojadas no Largo do Palácio (2) - Rapazes na sala de aulas, na escola no dia da sua inauguração - 1913
JOSÉ GAMEIRO
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