Segunda-feira, 8 de Outubro de 2018

CRÓNICA DO NOSSO TEMPO ! * Matar o Bico/ ou Encher o Bandulho

 

MATA O BICHO/ ou ENCHER O BANDULHO,

Era um hábito que vinha de gerações, nos homens que trabalhavam a terra, na Lezíria ribatejana.  Ainda  o século XX, estava  no quarto de vida,  já o Ti Zé Pataco, tinha grande raiva ao vinho que não o podia ver,  era o que dizia aos filhos ao longo da sua vida.

 Realmente o seu mata-bicho era uma caneca de café.  E foi isso que foi transmitido em sua casa, daí os seus filhos não serem também grandes apreciadores de bebidas alcoólicas

 Naquele tempo, havia poucas tabernas em Salvaterra de Magos, podiam-se contar pelos dedos de uma mão. O João da Pança, o Vitorino Marreco, a Anunciada, e o Artur Xavier.

O homem rural, ao sair de casa, bebia um copo de vinho, mas o preferido era a aguardante. Estavam em Jejum, e isso era o Mata-bicho, pois o almoço era já pelas 10 da manhã.

Os grupos juntavam-se pela ponte da vala real, antes de iniciarem a caminhada a pé, pois o trabalho começava ao nascer do sol nascer.

 Ali, existia a pequena taberna da família de Artur Pinto, que mal dava para meia dúzia de pessoas em pé, por vezes era aí o ultimo Mata-bicho, e se trocava a saudação de “um Santo Dia” com os Pescadores e Marítimos, que por lá já andavam.

 De regresso a casa, alguns depois da ceia,  lá davam uma saída à taberna do João da Pança

( alcunha por ter o estomago muito dilatado). Era um homem mediado de altura, usava além do um cinto uns suspensórios de tiras de cabedal para segurar as calças.  A Taberna, era na  Azinhaga ( à entrada da pequena Travessa) para jogarem uma jogada de bisca, e beberem um copito.

A casa tinha um pequeno pial em pedra à porta - que dava jeito nos dias de verão, para estarem ali à conversa.

   Alguns esqueciam-se do tempo, e regressavam já  com a cabeça a toldar -  a família lá dava um ralhete: Já vens com o bandulho cheio, e os rapazes sem comer na mesa !..

 O Vitorino Marreco (alcunha desde menino por ter uma anomalia na coluna, primeiro foi aprendiz de alfaiate), era o 7º e último irmão do Ti, Toino Pataco.  Estava estabelecido, ali na rua da Farmácia, a sua clientela da tarde e noite era mais a urbana. Por ali se entretinham alguns mestres de oficio, atá ao cair das matinas (meia noite), 12 horas tocadas no sino da torre ali ao lado. Esta Casa, veio mais tarde a ser explorada por Sebastião Cabaço, e um homem conhecido por Manel Renaca.

Avós Paternos - António Cantante e Emilia RosárA Taberna da Anunciada, a meio da Azinhagazinha, no Arneiro da vila, também era local de encontro dos homens da urbe, muitas vezes já depois da ceia, era sitio escondido, para jogar o chinquilho, no seu quintal (1).

 A maioria do povo era analfabeto.  A rudeza da vida no campo – iniciada desde menino,  a forma de alimentação e o beber sem rega, levava muito homem poucos anos depois de viverem  meio século, já  serem vistos como gente velha.

 O Ti, Tónho Pataco, naquela idade já pesado de corpo de alma, ainda bebia o seu copito, e quando isso acontecia, era de vê-lo, com uma garrafa ao alto equilibrada na cabeça, e gaiata de beiços, tentando dançar o fandango.

 Desde jovem foi  campino, tal como os irmãos – já vinha de geração tal arte.  Era gente que vinham a casa de 15/15 dias, por em dia as necessidades do corpo, receber o soldo ao escritório do patrão, ia ao barbeiro e passando pelas tabernas, muitas vezes esquecia-se que tinha uma prole de filhos para alimentar.  O filho, mais velho da grande prole, muitas vezes  noite dentro, lá ia buscá-lo à taberna, tinha-se esquecido de regressar a casa.

  Ali, estava gastando  a parca remuneração de trabalho, recebida horas antes,  já com o bandulho cheio de vinho, e num divertimento de grupo com os seus colegas de trabalho, que tiveram 15 dias ausentes da família.  A mulher, que também trabalhava no campo, em casa, na Rua d`Água, o esperava na esperança de comprar alguma coisa para os filhos comerem. Estas situações, foram a causa de tanto azedume do Zé Pataco, ao vinho. O Ti, Tonho Pataco, fez a última jornada de campo, guardando éguas afilhadas, na Casa Agrícola de Salvaterra,  José de Menezes & Irmão.

Nota:  (1) Esta taberna, foi descrita no Conto o”Último Dia do Lobo em Salvaterra”, de José Amaro -  década de 30, séc. XX

*José Gameiro

Foto: do Autor

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23.09.2018

 

publicado por historiadesalvaterra às 16:31
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