Ainda se estava a poucos anos, após ter terminado a II guerra mundial, o estado português, comprou à Inglaterra, alguns aviões que este país tinha usado naquele conflito. Dias antes tinha saído uma ordem (edital) da câmara municipal de Salvaterra de Magos, que dava cumprimento, a uma uma determinação do Governo Civil de Santarém, que alertava os munícipes que estivessem no espaço da passagem dos aviões, que na noite, de deteminado dia (que já me esqueci com o passar dos tempos), faziam o habitual percurso, Tancos até Alverca, desta vez de noite, e integrado num exercício da aviação do exército português.
Estávamos, no dobrar do séc. XX, uns dias antes daquele dia marcado, a azafama era grande em todas as lojas de comercio a retalho da vila. Os fregueses, especialmente as mulheres, procuravam jornais antigos e todo o tipo de papel (aqueles e estes serviam de embrulhos) do produto aviado ao balcão, muitas tinham deixado o trabalho, com perca de meio dia de jorna, para cumprirem o então editado pelas entidades oficiais.

Os aviões passariam de noite e era necessário que não fosse visto qualquer nesga de luz nas casas. Naquele tempo usava-se como luz, o candeeiro a petróleo e a vela. Raro era a família, que usa-se o gasômetro, o custo do mesmo era elevado, sendo só serviços municipais a terem-no em uso nas rua da vila. Mesmo assim, nessa noite Salvaterra, tinha de estar às escuras, durante o horário da passagem dos aviões.Os homens jovens, todo aquele que já tinha servido nas fileiras do exército, estava a par do que eram as “Manobras”, pois periódica mente já depois de estarem na situação de “passagem à disponabibilidade”, eram chamados para tais exercícios.Mas esta situação, era uma novidade, o povo andava com medo, e do dia estava próximo.
Realmente naquela noite, e que não me lembro nem do dia e mês, mas julgo que foi em 1950, pelas 22,00 horas, pois vi meu avô materno, tirar o relógio do bolso do colete; um barulho ao longe, primeiro ténue, acuando depois um pouco mais intenso, até que intensamente e durante uns cinco minutos, se faz ouvir no ar mesmo ali próximo da vila, até que se dissipou nos nossos ouvidos.
Realmente, no dia seguinte, os jornais deram a noticia – Aviões militares da força aérea, deslocaram-se de noite, de Tancos até Alverca, em exercício noturno, usando como ponto de referência o leito do rio Tejo.
A PRIMEIRA E ÚNICA VIAGEM DE AVIÃO
Toda aquela lembrança veio a propósito, pois queria aqui lembrar, a primeira vez que andei de avião. Naquela época, cruzavam o espaço aéreo desta vila, pequenos aviões de uma ou duas asas de cada lado, as chamadas avionetas.
Também o Conde de Monte Real (Jorge de Melo e Faro), vinha até Salvaterra, usando além do carro, este pequeno aparelho, que tinha como base de aterragem o terreno da Amieira, estando logo à sua espero o empregado Rui Cordeiro, que o trazia até ao seu Palacete. O rapazio, ao vê-lo voltear pelos ares, logo gritava: “Olha, o avião do Conde!..... “ e numa correria, que durava uns bons minutos, lá se juntava um pequeno grupo vendo aquela novidade. Um dia o Conde, convidou alguns rapazes a dar uma volta com ele. Muitos fugiram com receio, outros a medo esperaram, e o primeiro lá foi. Cá debaixo, era bonito, maravilhoso mesmo, ver a avioneta subir e descer lá para os lados do Tejo.
Quando chegou a minha vez, muito receoso lá entrei e a mando do senhor Conde, sentei-me a seu lado ( o avião tinha dois assentos), ele passou-me um cinto pelos ombros, com algumas palavras,para me acalmar, lá o avião, roncou num barulho ensurdecedor e depois estava no ar.
Que medo o meu, tudo tão pequeno cá em baixo– estava baralhado, e de repente as águas do Tejo num grande lençol que brilhavam, salteando com a luz do sol. De repente, foi-me dito, não tenhas medo, com a descida – ele, o Conde, começou a rir-se, o avião descia endiabradamente, como que a entrar naquela água tão límpida. Segundos depois estava subindo, dando uma volta larga, que terminou naquela improvisada pista da Amieira.
O senhor Conde, tirou-me o cinto, fez-me um afago, com umas palmadas nas costas, abriu a porta do aparelho, desci e corri loucamente não sei para onde. Estava todo urinado e borrado!.....
Realmente agora 60 anos, relembro como foi bom andar de avião!....
Nota: Foto do Conde Monte Real ( com a vestimenta de piloto que usou na prova de automobilismo; Porto - Santarém) , em 1936, a/d * Terreno da Amieira, com a casa agrícola da propriedade, ainda existe ( foto do autor)
JOSÉ GAMEIRO