Domingo, 19 de Julho de 2020

O MELÃO DE ALMEIRIM - NUNCA EXISTIU!

O MELÃO DE ALMEIRIM - NUNCA EXISTIU!

  A II guerra mundial tinha acabado, o país vivia uma grande penúria.  A fome também grassava nos lares ribatejanos e,o seu povo com terras férteis!

  Os dias de inverno não o livrava de juntar a miséria com a dor, de ver os campos com as àguas das cheias que tudo destruía.

No dobrar do séc. XX, quando a primavera  chegava, os campos ribatejanos estavam frescos, cheios de nateiros fertilizantes, ali depositados pelas águas das cheias.

Em pleno "coração" da Lezíria, Salvaterra de Magos, alguns jovens rurais que se dedicavam à seara do Melão, aproveitavam aquela época, ainda no inicio da faina agrícola, para iniciarem o seu cultivo -  melão e melancia, produção que acabava em pleno Verão, com a fruta em condições de ser vendida.

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Nesse tempo, também vinha gente de Almeirim e Alpiarça, até à borda-de-água, ocupavam aquelas terras frescas e produtivas, ali a beijar a margem esquerda, do rio em Vila Franca e Salvaterra. Eram familias que durante 6 meses encontravam naquela seara, o tempo deixado livre pelo "amanho" das vinhas, até ao tempo das vindimas em setembro.

 Não eram muitos, alguns juntavam-se em parceria, pois sabiam da "coisa", diga-se em abono da verdade. A seara do melão era o seu único trabalho e sustento familiar, até ao tempo das vindimas, porque as suas terras de pauis e arenosas, apenas tinham aptidão para o plantio da oliveira e searas de sequeiro, como a vinha.

Fazendo uma pequena barraca de velha madeira e folhas de zinco, onde os utensílios domésticos, davam para contar de uma assentada nos dedo da mão e, um estrado servia de cama.   Num anexo, fazia-se a comida tinha dias em que a sopa, de feijão (branco ou encarnado), batata, hortaliça, carne e enchidos de porco, era cozida em lume brando, era a ceia e servia no outro dia de almoço, após a cosedura descansar umas horas de noite – era um mimo !

Este prato, era comum em toda Lezíria ribatejana, mais tarde passou a ser servido na restauração da região, com outro nome - houve quem lhe chama-se "sopa da pedra" !

Aqui em Salvaterra, as terras frescas do Malagueiro, ao beijar a "Boca da Goiva" no rio Tejo, davam sempre boas safras de melão. Eu menino, acompanhava meus pais,naquela sua caminhada a pé, da vila até à sua seara de melão.

A mão-de obra, dos trabalhadores rurais de Salvaterra, era muito requisitada, pois salientava-se a sua destreza no uso da enxada, na cava à leiva.

Minha mãe, não gostava dos alpiarçanos (dizia-se entre as mulheres; eram homens com barriga grande, com umas calças de cós pequeno, bem apertadas num cinto, fazendo ver o fundo das costas, quando dobrados trabalhando a terra - era de ver-lhes aquele rego!

Das mulheres de Almeirim, não se fartava de as gabar (eram lindas, algumas de olhos azuis, tinham porte esguio, vestiam bem, um lenço na cabeça e avental de cores garridas, via-se mesmo que eram da lezíria), eram estes comentários que ainda guardo dos meus 4/5 anos de idade, e mais tarde tantas vezes ouvidos.

  O Melão, quando maduro, era de um verde escuro, algum com verrugas, pois havia o cuidado de não usar sementes que levassem a outras cores, lá aparecia algum verde listado de branco.

Destes eram seleccionadas todos os anos, as sementes e, anos depois cheguei a ver melões com casca a tirar para o branco, com um interior rosa – muito doces. Em cada cova, não muito funda eram colocadas 6 sementes, só uma árvore crescia, pois com uma navalha apropriada, lá cortavam as outras.  A rega, não era todos os dias, só em dias quentes, quando o fruto (melão e melancia) começava a “camar” eram voltados e, levavam um pouco de palha por cima, para não chapar.

A fruta era apanhada um tempo antes de amadurecer, e sendo empilhada – exposta à sombra, para a compra de muitas vendedores , que chegavam com camionetas de cargas, e a faziam chegar às bancas, para venda a retalho nas lojas de bairro de Lisboa.

Eram outros tempos a forma de cultivar estas searas com os métodos antigos – até o rapazio da família, com uma pedra seixo lhe batia no “traseiro” para ficar em condições “maçio” de ser apalpado pela clientela!

Tudo mudou, até o melão, agora já é de “Almeirim !..

 José Gameiro

******

Nota: Agora, também se diz que o melão branco - é o Manuel António, tem outra forma de selecção, alguma semente vai até aos laboratórios da América, para transformação. Como fruta que passou à produção em regadio e com estufa, qualquer terra vai sendo usada.

  
publicado por historiadesalvaterra às 17:43
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