Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020

CRONICA DO NOSSO TEMPO - UM FORNO DE PÃO, COMUNITÁRIO EM SALVATERRA

              UM FORNO DE PÃO – COMUNITÁRIO EM SALVATERRA DE MAGOS

Na Grécia, tal como em Roma, já se conhecia o método de fazer o pão, como na Palestina. Com o movimento do Império Romano, os seus exércitos ao instalarem-se nas terras da Lusitânia, deixaram por aqui esta forma de comer o pão de farinha fermentada.

No início da Idade média, por volta do ano 476, a cosedura do pão em forno, é produto consumido de lés-a-lés em Portugal, mas é na idade moderna, no séc. XVII, em França, que se desenvolve uma nova técnica de fabrico de panificação.

Com o aparecimento da mecanização, no séc. XIX, já se usavam as amassadeiras hidráulicas, que os padeiros começam por rejeitar, pois a mão-de-obra humana passa a ser substituída, o que em Portugal também leva tempo a aceitar, pois o pão era amassado manualmente, e o alimento base das famílias.

A lenha, era o combustível usado nos fornos, e guardado ao lado, em casa própria, depois de recolhido nos pinhais e charnecas, após o corte da primavera. Os “fornos comunitários”, eram os mais utilizados pelos habitantes das localidades a norte do país, com o objectivo de cozer a massa do centeio, trigo e milho, colheitas das suas  terras de cultivo. Por ser um alimento pobre, também entrava na mesa em dias festivos, composto e adornados com iguarias, conforme a tradição popular de cada região.

Trav do Forno 1990.png

Em Salvaterra, segundos algumas informações, a forma comunitária também era usada na povoação, existindo registos que no séc. XVIII, havia uma fornalha aquecida a lenha, na pequena artéria entre a rua de S. António e rua Direita, da vila.

Com o decorrer dos tempos, o povo ali ainda nos primeiros lustros do séc. XX,  comprava o pão num balcão improvisado, pelo forneiro de nome Ramalho, na sua casa, ali ao lado, na esquina da rua direita.

 Os povos dos lugares do concelho aqui também vinham trocar alguns sacos de sementes por pão cosido. Na década de 40, do séc, XX existia na Glória do Ribatejo, um forno de pão, tipo comunitário, explorado pela “Ti Teresa”, dando resposta às necessidades da população. Os fregueses entregavam a massa do pão, e a lenha, à “forneira” que tinha direito a uma “maquia” - uns pães por fornada, em forma de pagamento.

Forno 1939 e Amassando Farinha Gloria.png

– Nas famílias rurais que já tinham os seus fornos em casa, eram as mulheres que tinham este encarrego e quando da massa pronta, numa masseira/ ou, alguidar de barro, era bem “aconchegada”, numas mantas (para aquecer), pois assim levava 3 a 4 horas a levedar.  Naquele tempo usava-se a crença religiosa; - cada mulher do povo do concelho, lá fazia uma reza com o sinal da cruz; –  as orações não eram bem iguais;

– Na Gloria Ribatejo; “Abençoada sejas – Que já estás a Levedar!

                                      “Deus te acrescente, que és para muita gente!”

- Em Foros de Salvaterra; “ Por São Mamede e São Vicente, – Deus te acrescente!

                                                                         Que serás pão para muita gente!

                                                                 - Em Louvor do Santíssimo Sacramento! “

                                                                                             – Amém!”

- No Lugar do Granho: - S. Mamede te leve de, S Vicente te acrescente e S. João te faça pão! * É as mais brejeiros diziam; “Para que cresças tu… como as abas do me cú! “

Forno Granho.png

O pão era fermentado com alguma massa velha, e ficava com um sabor característico   a um travo àcido, e aroma avinagrado. Este sabor  era o mais usado em  Portugal,  costume que ainda se produz muito como: "pão de massa velha". O "pão alentejano" e muitas "broas minhotas" são exemplos disso.

Em 1936, entrou em laboração em Lisboa (Cruz Quebrada), a fábrica de Fermentos de origem holandesa, uma sucursal da empresa Nederlandsche Gist-en Spiritusfabribck, dedicada à fabricação desde 1869. Entre os padeiros do concelho de Salvaterra, que aceitaram convite para visitarem esta nova unidade fabril, estiveram; António Caetano Doutor e Francisco Peste que, já estavam a renovar os seus fornos, com amassadeiras mecânicas.

5 Fotos Foros Salvaterra - Joaquim Carlos  Moreira

Depressa a clientela, em Salvaterra, passou a consumir a Carcaça e, o papo-seco, pães da mesma massa, muito macios, que veio a ter os seus prediletos consumidores na vila. Com o avanço da industrialização, a forma comunitária de comprar pão perdeu aqui a importância sócio/cultural e, económica de outros tempos.

Num ápice aqui e ali, já se viam grandes novas chaminés de tijolo a sobressair os telhados. O velho forneiro Ramalho; seguiu-lhes os passos e fechou o forno da vila. Abriu uma moderna padaria na antiga rua do Pinheiro (rua Dr. Miguel Bombarda), a que deu o nome – Padaria Aurora, colocando no espaço do balcão, um azulejo com a prece: “Deus Abençoe esta Casa”.

2 Padaria Aurora Sem nome.png

A pequena e antiga artéria, em 1945, como a recordar que ali existiu um Forno Comunitário em Salvaterra de Magos. recebeu do executivo municipal a toponímia “Trav. do Forno”.

Joaquim Hipólito Ramalho, o filho mais velho do “Forneiro Ramalho” que, aprendeu desde menino a arte de amassar e fazer pão, depois da morte do pai, seguiu-lhe os passos e passou a explorar aquele forno da família.

lIGA.png

No dobrar do séc. XX, os antigos padeiros foram rareando, e na falta de novos aprendizes, em 1959, um vasto grupo do concelho, ajuntaram-se e criaram a; “Liga Panificadora Salvaterrense”, num terreno comprado ali ao lado da Praça de Toiros. Muitos deles, passaram a ser assalariados da empresa.

*José Gameiro

Nota: O autor não seguiu o acordo ortográfico de 1990

- O Texto completo publicado; www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt

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 Doc. Pesquisa e Fotos:

*Uma Glória do Mundo: Abril 2006 - Glória do Ribatejo

agloriadomundo.blogspot.com › 2006/08 * Roberto Caneira

*Doc. de pesquisa do autor, em várias fontes , incluídos no: Caderno Apontamentos  Nº 36 – Colecção “Recordar Também é Reconstruir”; Salvaterra de Magos – Toponímia da Vila Através dos Tempos –  Trav. do Forno - Pág. 51/52, do Autor, publicado em: - Google José Gameiro Issuu

*Fotos do Forno Recuperado, no Granho - Rosa Gomes 2020, que recolheu as Rezas e Benzeduras, junto da idosa; Ana Veríssimo da Silva

*Fotos do Forno - Rezas e Benzeduras em Foros de Salvaterra – Recolha; Joaquim Carlos Moreira

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publicado por historiadesalvaterra às 11:04
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