A II guerra mundial tinha acabado, o país vivia uma grande penúria. A fome grassava nos lares.
0 Ribatejo, mesmo com terras férteis, não se livrava dessa angústia, juntando o tempo doloroso do inverno, com as àguas das cheias que tudo destruía. Quando a primavera chegava, os campos ficavam frescos para uma nova jornada de trabalhos na lavoura. Em Salvaterra de Magos, alguns jovens trabalhadores rurais aproveitavam aquela época, para iniciarem o amanho da terra, nas cearas de melão e melancia, que acabava em pleno Verão. Nesse tempo, também vinha até à borda-de-água, para as terras de Vila Franca e Salvaterra, passar 6 meses do ano, gente de Almeirim e Alpiarça.
Não eram muitos, diga-se em abono da verdade, mas sabiam da “coisa”, para além da vinha. A ceara do melão era o seu único trabalho e sustento familiar, até porque as suas fazendas apenas tinham terras, de grande aptidão para o plantio da oliveira e cearas de sequeiro, e estar de “espera” até às vindimas, em Setembro, era tempo de fome e tédio.
Alguns casais, faziam até sociedades, assentavam lugar, fazendo uma pequena barraca de velha madeira e folhas de zinco, onde os utensílios domésticos, davam para contar de uma assentada e, um estrado servia de cama. Num anexo, fazia-se a comida tinha dias em que a sopa, de feijão (branco ou encarnado), batata, hortaliça, carne e enchidos de porco, era cozida em lume brando, era a ceia e servia no outro dia de almoço, após a cosedura descansar umas horas de noite – era um mimo !

Este prato, era comum em toda Lezíria ribatejana, mais tarde passou a ser servido na restauração da região, com outro nome.
Aqui em Salvaterra, as terras frescas do Malagueiro, davam sempre boas safras, alagadas pelas cheias, na época das chuvas ficavam sedimentadas de ricos nutrientes, começando a enxugar, como que a fermentar, nos dias de Fevereiro.
A mão-de obra, dos trabalhadores de Salvaterra era muito requisitada, pois salientava-se a sua destreza no uso da enxada.
Minha mãe, não gostava dos alpiarçanos (dizia; eram homens com barriga grande, com umas calças de cós pequeno, bem apertadas num cinto, fazendo ver o fundo das costas, quando dobrados andavam a trabalhar a terra). Das mulheres de Almeirim, não se fartava de as gabar (eram lindas, algumas de olhos azuis, tinham porte esguio, vestiam bem, um lenço na cabeça e avental de cores garridas, via-se mesmo que eram da lezíria), eram estes comentários que ainda guardo dos meus 4/5 anos de idade, e mais tarde tantas vezes ouvidos.
O Melão, quando maduro, era de um verde escuro, algum com verrugas, pois havia o cuidado de não usar sementes que levassem a outras cores, lá aparecia algum verde listado de branco. Destes eram seleccionadas todos os anos, as sementes e, anos depois cheguei a ver melões com casca a tirar para o branco, com um interior rosa – muito doces. Em cada cova, não muito funda eram colocadas 6 sementes, só uma árvore crescia, pois com uma navalha apropriada, lá cortavam as outras. A rega, não era todos os dias, só em dias quentes, quando o fruto (melão e melancia) começava a “camar” eram voltados e, levavam um pouco de palha por cima, para não chapar. Eram outros tempos a forma de cultivar estas cearas com os métodos antigos. Tudo mudou, até o melão já é de “Almeirim”.
Nota: Agora, também se diz que o melão branco tem outra forma de selecção, alguma semente vai até aos laboratórios da América, para transformação. Como fruta que passou à produção em regadio e com estufa, qualquer terra vai sendo usada.
JOSE GAMEIRO