Sábado, 23 de Maio de 2020

Em Salvaterra de Magos -QUANDO NA QUINTA-FEIRA DE ASCENSÃO, Sempre se apanhava a Espiga!

QUANDO NA QUINTA-FEIRA DE ASCENSÃO,

Sempre se apanhava a Espiga!

Da Pascoa à Ascensão – 40 dias vão!

Na reforma administrativa realizada em Portugal, em 1936, foi criada a Província do Ribatejo. É uma região genuína na Lezíria do Tejo, e Salvaterra de Magos, estava no seu coração,  deixou de estar na Província da Estremadura. Era naquele dia 17 de Maio, que o povo religioso, guardava o preceito da ascensão da elevação de Jesus Cristo ao céu.  Vinha também de séculos, a tradição, do povo ir ao campo, e passá-lo numa festa de misto religioso e profano.

Com a república em 1910, foi dada a figura jurídica ao feriado municipal, e finalmente com a nova província ribatejana, 10 dos seus concelhos (1), escolheram, um dia móvel, daquele mês de Maio, em plena primavera, para o povo festejá-lo com gestos festivos, e ir ao campo e conviver com familiares e amigos. Manhã cedo era de ver as filas de gente a pé, em carroças e outros transportes, a caminho do campo, e passar o dia em são convívio, onde a vozearia das cantigas punham em dessossego a passarada que voavam pelas cearas em busca de sementes. - estava-se em tempo de criações!

Outros iam pagar as suas promessas, a S. Baco, ali ao pé de casa – no antigo Convento de Jericó. Havia quem fosse à romaria do Senhor da Boa Morte, em Povos – Vila Franca de Xira, e chegavam até a ir à Ermida de Alcamé, em plena Lezíria, onde havia um cortejo religioso do povo de Samora Correia.

Havia lavradores, que aproveitavam o dia feriado da Quinta-feira da Ascensão, e faziam as ferras, e tentas dos seus bezerros bravos, depois do desmame dos animais. Nesse dia lá tinham num almoço amigos convidados na festa.

Aos seus trabalhadores e ao povo em geral, ofereciam um lanche. Alguns artista da revista e cantadores de fado, de Lisboa, convidados aproveitavam aquele dia de convite, e vinham a Salvaterra – passar pela primeira vez o dia em pleno Ribatejo.

 

dia_da_espiga.jpg

Com as cearas de trigais e manadas de gado, pastando bem à vista, os grupos  escolhiam umas sombras de um bom arvoredo, e  ali eram abertos os estendais, onde os farnéis seriam repartidos por todos. Naquele ano, o pároco da freguesia de Salvaterra, que vivia isolado numa dependência da Igreja Matriz da vila, aos domingos e dias solenes, era convidado pelas famílias, mais abonadas da terra, para um almoço de convívio familiar à mesa repleta de iguarias, também esteve presente.

O Sacerdote, naquele dia depois da Eucaristia celebrada na Igreja de São Paulo, lá apareceu na sua mota (2), no Campo dos Freires. Antes da hora do almoço, foram interrompidos os festejos dos adultos, e as brincadeiras dos jovens e das crianças.

 O Padre; Manuel, naquela festa campestre vestiu os seus paramentos religiosos, e presidiu à pequena cerimónia campal onde foi evocado Santo Antão, em favor da sua bênção para a fertilidade dos animais e pedido pelos presentes que, intercedesse para olhar por melhores colheitas nos campos.

Pela tarde fora, os adultos e os mais idosos, dormiram uma sesta, enquanto entre os jovens foram trocados olhadores e acenos.  

A ocasião era propícia, com frequência, ao despontar de sentimentos entre moços e cachopas, trocas de espigas e de olhares em tarde de Maio quente que, depois davam namoro e muitas vezes ligações para a vida inteira. Fazia-se roda, contavam-se histórias, desfiavam-se cantigas e dançava-se ao toque da concertina, da gaita-de-beiços ou de outro instrumento que alguém levasse e soubesse tocar.

 Ao findar daquele dia, havia a apanha da espiga;  nesta região da Lezíria, bastava um ramalhete de três espigas de trigo; três malmequeres amarelos:  três papoilas; mais um raminho de oliveira em flor.  Era em casa, pendurado nas costa da porta de entrada, substituindo o do ano anterior, sempre na crença de maior sementeiras e fertilidade nos animais.

 Durante uns tempos, era conversa entre os jovens –Este ano, sempre apanhas-te a espiga!

*José Gameiro

*******

Notas; (1) –Alcanena, Almeirim, Benavente, Chamusca, Cartaxo, Torres Novas, Golegã, Salvaterra de Magos e Vila Franca de Xira 

(2)- O Padre Manel, como era carinhosamente tratado e conhecido, à muito vivia em Salvaterra, e transportava-se numa mota – um dia nas suas deslocações às povoações do concelho, teve um acidente nas Ponte do Paul de Magos, onde viria a morrer – foi sepultado no cemitério da freguesiNa reforma administrativa de 1936, a região do Ribatejo, que sendo genuína na Leziria do Tejo, estava até aí na Província da Estremadura.  a de Salvaterra de Magos.

publicado por historiadesalvaterra às 18:12
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 22 de Abril de 2020

O TERRAMOTO DE 1909 . EM SALVATERRA DE MAGOS

O Terramoto de 1909 - em Salvaterra de Magos

Ficaram nas notícias dos jornais da época e, aqui lembramos passados 111 anos depois o que foi os grande estragos e sofrimento que causou, o terramoto de 1909, em Benavente, Samora Correia e Salvaterra de Magos – as mortes, foram as suas grandes vítimas!

O terramoto no ano de 1755, que se abateu sobre a cidade Lisboa, onde os focos de destruição foram de tal monta, que depressa fez esquecer, aquele de 1581, que o povo ainda guardava nas suas memórias. Certo é, que este último, segundo rezam as crónicas desde sismo , tinha obrigado o rei D. João III, que pernoitava no Paço de Benavente, a fugir com sua comitiva  para Alhos Vedros, e depois esteve em Azeitão, onde passou uns dias a recompor-se do susto.

2 Paço real.png

Os relatos contam-nos, que aquele Aposento Real de Benavente, acabou por desabar por completo, até porque a terra, tremeu e fez-se sentir, foi  de tal monta,  em toda a bacia do Tejo; Vila Franca  (assim conhecida em 1855), Azambuja, Santarém, Castanheira do Ribatejo.

Os mais antigos de Salvaterra, e que estavam vivendo em dois séculos, lá iam falando do ocorrido em 1858, que destruiu a fachada do Paço real da vila, uma construção que vinha da  iniciativa do Infante D. Luís no séc. XIV. Além das habitações, a Igreja Matriz, mostrava danos na sua torre, nas paredes e a cruz de pedra, em cima da porta de entrada da sua frente caiu.

2 Terramoto.png

O mais recente, o terramoto de 1909, provocou mais estragos e mortes na vila de Benavente, tendo as terras limítrofes de Samora Correia e Salvaterra de Magos, sofrido mais estragos no campo das construções. O dia 23 de Abril, segundo relatos que nos ficaram para a história deste sismo, tinha nascido com o sol um pouco morno, pois o tempo de Primavera, já se fazia sentir nestas terras da Lezíria ribatejana. Os rurais, com o dia a meio  do trabalho braçal, já inclinando para os alvores da noite. foram alertados com a terra a tremer, ali junto às margens do Tejo.

  De Salvaterra, os patrões enviaram alguns Abegões, que de cavalo percorreram o campo, e ordens houve “regressem a casa”, mas em fila!

Sem nome.png

As réplicas continuaram, mesmo no dia seguinte, com o povo concentrado no Largo em frente à Câmara Municipal. As pessoas gradas da terra, reuniram num celeiro do lavrador; Gaspar Ramalho, com este a tomar a iniciativa das providências a tomar, informando o Governo em Lisboa e, o seus representantes em Santarém.

De Setúbal, chegou à vila um Batalhão de militares, Sapadores, durante meses procederam à limpeza do entulho, em que ficaram a casas, mantiveram a ordem e a paz entre a população.  A Cruz Vermelha, não deixou de fazer a montagem de algumas barracas que albergaram ao longo dos meses as famílias desprovidas de habitação.

 Nos anos seguintes, a recuperação de Salvaterra, trouxe benefícios à vila, deixou de estar confinada às suas 8 ruas primitivas, e a  urbanização passou a ter  espaços novos, a sul e poente da Igreja Matriz, onde nos dias que passam, podem ver-se  construídas modernas habitações e  bairros sociais e cooperativos.

*José Gameiro

Nota: Doc. recolhidos pelo autor e publicados no Jornal Aurora do Ribatejo * Texto “ Os Dias que se Seguiram ao Terramoto de 1909”, do autor, e publicado no Jornal Vale do Tejo 1999 *

 Caderno 17, publicado Vol III Colecção Recordar, Também é Reconstruir * Livro: O Sismo de 1909, em Salvaterra de Magos, edição Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, Abril 2009 * O Terramoto Foi à Um Ano, Cronica do autor, 6.3. 2009 – www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt *

publicado por historiadesalvaterra às 19:04
link | comentar | favorito
Terça-feira, 7 de Abril de 2020

CRÓNICA DO NOSSO TEMPO - Batista Pereira, treinou, nadando na Vala Real de Salvaterra de Magos

BATISTA PEREIRA, TREINOU, NADANDO  NA VALA REAL DE SALVATERRA DE MAGOS

* (Recordações) *

As Festas de Salvaterra de Magos, naquele ano de 1983, tinham a participação de uma viagem de pequenos barcos à vela, de recreio e alguns de calado mais fundo, que de Alhandra chegariam a Salvaterra. Era mais um Cruzeiro do Tejo, uma organização da Secção de Vela, do Alhandra Sporting Club e, uma multidão acorreu ao cais da vala, pois depressa correu a noticia que entre os participantes, vinha o antigo nadador; Batista Pereira.

Joaquim Baptista Pereira[1].jpg

 A viagem de regresso estava prevista para o Domingo seguinte, aproveitando a maré. No meio daquele emaranhado de velas e barcos, que davam outro colorido espelhado na água da maré cheia, lá no meio da grande comitiva de participantes, entre aqueles que já lançavam cordas para a atracagem, via-se num pequeno barco de recreio, recolhia velas um homem baixo, pesado de corpo, de casaco branco, tipo jaqueta, onde a alvura do pouco cabelo, debaixo de um boné de marinhagem, chamava a atenção, especialmente dos mais antigos ali presentes.

 – Aqueles que um dia de 1954, viram aquele homem lançar-se à água, num treino, de regresso a Alhandra, depois de ter passado a noite na Pensão do Café Ribatejano.

 A tarde já estava a meio e com a atracagem dos barcos feita, o movimento no cais estava mais calmo, depressa regressei ao Largo da vila, local onde iam decorrer as principais atracções dos festejos. A rua que dava acesso aos Bombeiros, já tinha farto movimento nas Tasquinhas, uma forma de receita das Associações Sociais e Colectividades da terra.

Ali, próximo junto a uma velha janela da antiga construção, que um dia foi de Adega e Armazéns, construção que vinha de 1900, lá estava; Joaquim Batista Pereira,  “espectado” a contemplar o andar do Ribatejano, onde um dia houve uma Pensão e lá tinha dormido uma noite.

Deveras, talvez a recorda-se, daquele ano de 1954, tempo que treinava para a travessia do Canal da Mancha, onde venceu pela primeira vez, numa distância que percorreu, nadando, em 12 horas, e numa outra presença, em 1959, conquistou o 3º lugar.

Na madrugada daquele inverno, de 1954, o nevoeiro era intenso, muito povo se concentrou no cais e no valado que resguarda a água da vala, até à Boca da Goiva.  Eu, ainda menino de escola, morava ali no Botaréu e, passei a noite em desassossego, para ver o nadador; Batista Pereira, àquela hora que o povo dizia que, ele, iria iniciar a sua natação de regresso até à sua terra natal, lá estava eu, entre aquela multidão de gente. “O Gineto”, como Soeiro Pereira Gomes, o descreveu  no seu livro “Esteiros”, chegou a pé pela rua Direita, despiu um roupão de agasalho, ficando com uma peça de natação vestida e, os seus assistentes “ensaboaram-lhe o corpo” em gordura, lá foi colocado uns óculos e uma touca.  Depressa atirou-se à água, e iniciou a viagem de treino, até Alhandra, distância de cerca de 6 Kms, demorando o tempo de 4h34m.

O Valado apinhado de gente acompanhava o nadador nas suas braçadas, num ritmo cadenciado, acompanhado de perto por um pequeno barco com os seu treinador.  Ao  chegar à ligação das águas do Tejo, voltou-se,  e lá fez vários acenos de despedida, aqueles entusiastas  entusiastas responderam-lhe batendo palmas. Momentos depois desapareceu ao longe nas águas do rio!

- Batista Pereira, nasceu em 1921, começou em criança a nadar pelos Mouchões do rio Tejo, e nas suas alvercas enchia um bote de moliço, nadando, puxava-o através de uma corda amarrada à cintura.   Entre as cerca de 150 provas que participou em Portugal, nas distâncias de longa distancia no Tejo e no mar, também participou e bateu recordes, em Outubro de 1953, e Setembro de 1959 ao atravessar o estreito de Gibraltar. Morreu em Junho de 1984 * José Gameiro

Foto: Internet

publicado por historiadesalvaterra às 16:37
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020

AS CÉGADAS DO ENTRUDO, EM TEMPO DE CARNAVAL, EM SALVATERRA DE MAGOS

 

AS CÉGADAS DO ENTRUDO, EM TEMPO DE CARNAVAL,

em Salvaterra de Magos

Um Dia, em 1989, entrevistei Maria Josefina Vidigal, senhora já de idade avançada, que ainda jovem tinha pertencido ao elenco do grupo teatral de Salvaterra de Magos.

Enquanto discernia as suas memórias, lembrou-se que o teatro na terra apareceu depois que o antigo grupo de homens, os que organizavam as Cegadas, no antigo Grémio Artístico Salvaterraense, com sede na rua do Forno de Vidro.

Cegadas - Carnaval.png

Houve um tempo de “poisio” não havia nada vila, até que por volta de 1935, o grupo mesmo muito reduzido, ainda lá pertenciam; O Pedro Santos, o Alvaro Lopes. O António Paulo Cordeiro, o Augusto da Luz, e mais novo; José Miguel Borrego, os que gostavam muito daquelas paródias de Entrudo. Alguns tocavam instrumentos musicais de cordas – como o bandolim, não deixavam de pensar em organizar alguma coisa, que motiva-se a juventude da terra.

A ideia inicial, que nunca vingou foi um grupo coral na Banda de Musica nos Bombeiros, até que em 1936, veio o teatro, já com recitas que mobilizou os rapazes e raparigas.

Menina que eu era, dizia-me; Josefina Vidigal, ouvia dizer aos mais antigos, que se juntavam na oficina de alfaiate, onde aprendia a ser costureira de alfaiate.

“ As cegadas no Grémio, eram sempre esperadas com ansiedade, pois eram três dias, de divertimentos para os sócios daquela Associação Recreativa da vila. Os homens que entravam em palco, mascarados à "tronguedo" com roupas de mulheres, cantavam farsas burlescas de sátira social e política, onde era permitido frases obscenas. Aqueles instrumentos de cordas, em certas partes tinham o acompanhamento da vozearia do povo.

Com a madrugada alta, havia bailes com a abertura da pinhata. Eram três noites, que começavam no domingo de Março, tempo antes da Quaresma.

*José Gameiro

Nota: Origem da Foto Fb

publicado por historiadesalvaterra às 13:21
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020

CRONICA DO NOSSO TEMPO - UM FORNO DE PÃO, COMUNITÁRIO EM SALVATERRA

              UM FORNO DE PÃO – COMUNITÁRIO EM SALVATERRA DE MAGOS

Na Grécia, tal como em Roma, já se conhecia o método de fazer o pão, como na Palestina. Com o movimento do Império Romano, os seus exércitos ao instalarem-se nas terras da Lusitânia, deixaram por aqui esta forma de comer o pão de farinha fermentada.

No início da Idade média, por volta do ano 476, a cosedura do pão em forno, é produto consumido de lés-a-lés em Portugal, mas é na idade moderna, no séc. XVII, em França, que se desenvolve uma nova técnica de fabrico de panificação.

Com o aparecimento da mecanização, no séc. XIX, já se usavam as amassadeiras hidráulicas, que os padeiros começam por rejeitar, pois a mão-de-obra humana passa a ser substituída, o que em Portugal também leva tempo a aceitar, pois o pão era amassado manualmente, e o alimento base das famílias.

A lenha, era o combustível usado nos fornos, e guardado ao lado, em casa própria, depois de recolhido nos pinhais e charnecas, após o corte da primavera. Os “fornos comunitários”, eram os mais utilizados pelos habitantes das localidades a norte do país, com o objectivo de cozer a massa do centeio, trigo e milho, colheitas das suas  terras de cultivo. Por ser um alimento pobre, também entrava na mesa em dias festivos, composto e adornados com iguarias, conforme a tradição popular de cada região.

Trav do Forno 1990.png

Em Salvaterra, segundos algumas informações, a forma comunitária também era usada na povoação, existindo registos que no séc. XVIII, havia uma fornalha aquecida a lenha, na pequena artéria entre a rua de S. António e rua Direita, da vila.

Com o decorrer dos tempos, o povo ali ainda nos primeiros lustros do séc. XX,  comprava o pão num balcão improvisado, pelo forneiro de nome Ramalho, na sua casa, ali ao lado, na esquina da rua direita.

 Os povos dos lugares do concelho aqui também vinham trocar alguns sacos de sementes por pão cosido. Na década de 40, do séc, XX existia na Glória do Ribatejo, um forno de pão, tipo comunitário, explorado pela “Ti Teresa”, dando resposta às necessidades da população. Os fregueses entregavam a massa do pão, e a lenha, à “forneira” que tinha direito a uma “maquia” - uns pães por fornada, em forma de pagamento.

Forno 1939 e Amassando Farinha Gloria.png

– Nas famílias rurais que já tinham os seus fornos em casa, eram as mulheres que tinham este encarrego e quando da massa pronta, numa masseira/ ou, alguidar de barro, era bem “aconchegada”, numas mantas (para aquecer), pois assim levava 3 a 4 horas a levedar.  Naquele tempo usava-se a crença religiosa; - cada mulher do povo do concelho, lá fazia uma reza com o sinal da cruz; –  as orações não eram bem iguais;

– Na Gloria Ribatejo; “Abençoada sejas – Que já estás a Levedar!

                                      “Deus te acrescente, que és para muita gente!”

- Em Foros de Salvaterra; “ Por São Mamede e São Vicente, – Deus te acrescente!

                                                                         Que serás pão para muita gente!

                                                                 - Em Louvor do Santíssimo Sacramento! “

                                                                                             – Amém!”

- No Lugar do Granho: - S. Mamede te leve de, S Vicente te acrescente e S. João te faça pão! * É as mais brejeiros diziam; “Para que cresças tu… como as abas do me cú! “

Forno Granho.png

O pão era fermentado com alguma massa velha, e ficava com um sabor característico   a um travo àcido, e aroma avinagrado. Este sabor  era o mais usado em  Portugal,  costume que ainda se produz muito como: "pão de massa velha". O "pão alentejano" e muitas "broas minhotas" são exemplos disso.

Em 1936, entrou em laboração em Lisboa (Cruz Quebrada), a fábrica de Fermentos de origem holandesa, uma sucursal da empresa Nederlandsche Gist-en Spiritusfabribck, dedicada à fabricação desde 1869. Entre os padeiros do concelho de Salvaterra, que aceitaram convite para visitarem esta nova unidade fabril, estiveram; António Caetano Doutor e Francisco Peste que, já estavam a renovar os seus fornos, com amassadeiras mecânicas.

5 Fotos Foros Salvaterra - Joaquim Carlos  Moreira

Depressa a clientela, em Salvaterra, passou a consumir a Carcaça e, o papo-seco, pães da mesma massa, muito macios, que veio a ter os seus prediletos consumidores na vila. Com o avanço da industrialização, a forma comunitária de comprar pão perdeu aqui a importância sócio/cultural e, económica de outros tempos.

Num ápice aqui e ali, já se viam grandes novas chaminés de tijolo a sobressair os telhados. O velho forneiro Ramalho; seguiu-lhes os passos e fechou o forno da vila. Abriu uma moderna padaria na antiga rua do Pinheiro (rua Dr. Miguel Bombarda), a que deu o nome – Padaria Aurora, colocando no espaço do balcão, um azulejo com a prece: “Deus Abençoe esta Casa”.

2 Padaria Aurora Sem nome.png

A pequena e antiga artéria, em 1945, como a recordar que ali existiu um Forno Comunitário em Salvaterra de Magos. recebeu do executivo municipal a toponímia “Trav. do Forno”.

Joaquim Hipólito Ramalho, o filho mais velho do “Forneiro Ramalho” que, aprendeu desde menino a arte de amassar e fazer pão, depois da morte do pai, seguiu-lhe os passos e passou a explorar aquele forno da família.

lIGA.png

No dobrar do séc. XX, os antigos padeiros foram rareando, e na falta de novos aprendizes, em 1959, um vasto grupo do concelho, ajuntaram-se e criaram a; “Liga Panificadora Salvaterrense”, num terreno comprado ali ao lado da Praça de Toiros. Muitos deles, passaram a ser assalariados da empresa.

*José Gameiro

Nota: O autor não seguiu o acordo ortográfico de 1990

- O Texto completo publicado; www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt

*************

 Doc. Pesquisa e Fotos:

*Uma Glória do Mundo: Abril 2006 - Glória do Ribatejo

agloriadomundo.blogspot.com › 2006/08 * Roberto Caneira

*Doc. de pesquisa do autor, em várias fontes , incluídos no: Caderno Apontamentos  Nº 36 – Colecção “Recordar Também é Reconstruir”; Salvaterra de Magos – Toponímia da Vila Através dos Tempos –  Trav. do Forno - Pág. 51/52, do Autor, publicado em: - Google José Gameiro Issuu

*Fotos do Forno Recuperado, no Granho - Rosa Gomes 2020, que recolheu as Rezas e Benzeduras, junto da idosa; Ana Veríssimo da Silva

*Fotos do Forno - Rezas e Benzeduras em Foros de Salvaterra – Recolha; Joaquim Carlos Moreira

********

publicado por historiadesalvaterra às 11:04
link | comentar | favorito
Terça-feira, 31 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO - A Minha Primeira Grande Penda de Natal

RECORDANDO!
A MINHA PRIMEIRA GRANDE PRENDA DE NATAL
Em Salvaterra de Magos, o tempo de Natal já andava afadigando as jovens mães, mesmo nos trabalhos no campo. Aí, conversavam umas com as outras: – Não sei o que comprar este ano para por no sapatinho do meu filho!

O Ano de 1948, estava chegando ao fim, as vindimas já tinham acabado e, a ceifa do arroz estava prejudicada pela chuva que não deixava de cair havia alguns dias.
Minha mãe, na loja do Francisco Henriques, lá comprou; oleo para fritar, farinha e arroz, canela e outras especiarias. Não deixou de comprar umas broas de milho e alguns chocolates, entre outras pequenas goluseimas para mim.

Meu pai, já tinha guardado em casa uma abóbora, que colheu na sua Calhandra/Boiça (pequena horta), lá para os lados do Tejo, tinha já a promessa do seu padeiro; Francisco Peste, que lhe oferecia um pedaço de fermento.

Na tarde do dia 24 de Dezembro, minha mãe não foi trabalhar – o patrão, tinha dado ao rancho o meio dia!

De tarde, antes de me ir buscar a casa dos pais - meus avós, que moravam lá nos Quartos da vila, já tinha cozido a abóbora. Na mesa lá estavam à mão, a garrafa de aguardente que acompanhei meu pai  na compra, ao Adegueiro; José Rato, ali perto, na Adega do Dr. Lino, e o leite que os meus avós, lhe ofereceram!

A nossa casa era na rua Debaixo dos Arcos (Rua Heróis de Chaves), e a tarde já ia alta, quando meu pai chegou a casa – foi dispensado da Câmara municipal, onde trabalhava, e depressa lá foi amassando a farinha e a abóbora, num grande alguidar de barro. As laranjas estavam ali à mão num cesto de verga!

 Quando fazia a cobertura da massa com uma manta, para levedar, a vizinha; Mariana Costa (Paiva), mãe do António Carlos e da Maria Amélia, crianças da minha criação, bateu à porta trazendo um prato com umas fatias  de bolo podre, que não deixou de repartir da sua mesa - era uma especialidade de séculos na terra, e feito pelas gentes de maiores posses económicas, em épocas  festiva.

Meu pai, homem de “engenhocas” depressa de um fio de cobre fez um passador para a fritura dos velhozes (1), e na chaminé antiga de boca larga, lá foi num fogão a petróleo, fritando pedaços da massa, que pareciam ovos, enquanto minha mãe, ao lado num outro fogão, mexia com uma colher de pau, o arroz para fazer arroz doce. Eu, curioso acompanhava aquela azáfama dos dois!

Os potes com água, que minha mãe tinha ido buscar ao Curral do Freires, estavam por ali perto no chão. Aqueles doces, fariam a alegria da nossa mesa no dia de Natal.

80441019_2924570177618898_6906158389487730688_n.jp

A noite já dava mostras da hora de curtir o sono, e lá ouvi meus pais – Zé, vai buscar o sapatinho para por na chaminé, o Pai Natal traz a tua prenda, ele vem visitar a nossa casa!

Nessa noite, dormi desassossegado – manhã cedo, lá estava num grande embrulhado, um ciclista de madeira. A minha primeira grande prenda de Natal, pois nos anos anteriores, tinha sido um par de meias!
José Gameiro

 

 

*****
Nota: O autor não segue o Acordo ortográfico de 1990
*****
(1) - voz do povo/ Dicionário – Filhoses

Foto: retirado do Facebook

publicado por historiadesalvaterra às 11:10
link | comentar | favorito
Domingo, 29 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO * MATAR O BICHO/ ou ENCHER O BANDULHO,

MATAR O BICHO/ ou ENCHER O BANDULHO,

era um hábito de linguagem das gentes que trabalhavam a terra na Leziria ribatejana, que vinha de gerações. Ainda só tinham passado 30 anos do século XX, já o Zé Pataco (alcunha que lhe vinha de família desde o seu avô; Luis Galricho), tinha grande aversão ao vinho e, não deixava passar a oportunidade para dizer aos filhos - maldito álcool, que tolda a alma e o espirito, causando tantos estragos numa familia.

 Realmente só em dias de festa lá acompanhava com uma bebida espirutuosa, pois o seu mata-bicho era sempre em casa, com uma caneca de café e  um pedaço de chouriço que sobrava da ceia, num naco de pão.

No entanto já chefe de família, na época das vindimas, chegou a trabalhar nos lagares da grande Adega que existiu no Largo dos Combatentes - bem dentro da vila de Salvaterra de Magos e, aí com o seu Adegueiro; Manel da Repolha, aprendeu a fazer o Vinho, Aguardente e Bagaceira. Anos mais tarde, como gostava sempre de aprender mais e melhor, já na sua Calhandra, ali para os lados do Tejo, plantou uma Ginjeira, e todos os anos colhia as ginjas para fazer em casa uma deliciosa bebida - Ginja com elas!

As arrelias que passou por causa das tabernas, era coisa que o acompanhava e, se lembrava bem daquele tempo, poucos anos tinham passado depois que terminou a guerra mundial, havia poucas tabernas em Salvaterra, podiam-se contar pelos dedos de uma mão. O João da Pança, o Vitorino Marreco, a Anunciada e o Artur Xavier. O homem rural, ao sair de casa, bebia nas tabernas da vila, o seu Mata-bicho - um copo de Aguardente, pois o Abafado era coisa que pesava no bolso.

Aquela hora da madrugada estavam em Jejum, tinham-se levantado com os primeiros cantos dos Galos (5 da matina), pois o almoço no campo era já pelas 10 da manhã, depois de umas 4 horas horas de bem cavar a terra.

- Os grupos juntavam-se na ponte da vala real, antes de iniciarem a caminhada a pé de uma boa hora de marcha, o trabalho começava ao nascer do sol, e terminava depois deste se por, lá para os lados da serra de Sintra. Como diziam!

 

42366742_1976409269101665_2103747888650649600_n.jpNo cais, existiam a taberna do Miguel, e uma outra pequena, da família de Artur Pinto. Esta, que mal dava para meia dúzia de pessoas em pé, por vezes era aí o seu ultimo Mata-bicho, e se trocavam a saudação de “um Santo Dia” com os Pescadores e Marítimos, que por lá já andavam. De regresso a casa, o luz-fusco já os acompanhava, e alguns que moravam na Azinhaga da vila,depois da ceia, lá davam um salto à taberna do João da Pança,sendo um homem mediado de altura, usava além do um cinto uns suspensórios de tiras de cabedal para segurar as calças - a alcunha, veio-lhe por ter o estômago muito dilatado.

Ali, jogavam uma cartada da bisca, e bebiam um copito. A casa tinha um pequeno pial em pedra à porta, que dava jeito nos dias de verão, para estarem à conversa e fumarem uma cigarrada!

- Alguns esqueciam-se do tempo, e regressavam já com a cabeça a toldar - em casa havia ralhete: a mulher sempre se atrevia a dizer, já vens com o bandulho cheio, e os rapazes sem comer na mesa, porque não há dinheiro para o comprar na loja da Celestina.

 

2 Sem nome.pngO Vitorino Marreco (alcunha desde menino por ter uma anomalia na coluna, primeiro foi aprendiz de alfaiate), era o 7º e último irmão do Ti Toino Pataco. Estava estabelecido, na rua da Farmácia, a sua clientela era mais de tarde e noite, por ali paravam os mestres de oficio, que se entretinham até à hora de curtir o sono. As 12 badaladas se ouviam no sino da torre da Igreja, ali ao lado. Esta taberna - veio mais tarde a ser explorada por Sebastião Cabaço, e ainda por Manuel Nunes, homem conhecido por Manel Renaca.

- Na Taberna da Anunciada, a meio da pequena Azinhaga, no Arneiro da vila, logo ao cair da noite era colocada no portal a lanterna com a vela acesa. Era local de encontro dos homens da urbe - gente dos ofícios e da escrita, por ser sitio mais escondido. para se jogar o chinquilho, no seu quintal (1). O povo rural era quase todo analfabeto.

- A rudeza da vida no campo, iniciada desde menino, a forma de alimentação e o beber sem rega, levava muito homem poucos anos depois de viverem meio século, já serem vistos como gente velha!  - Os campinos, aqueles que andavam guardando os toiros bravos na Leziria, tal como todos os 3 irmãos, filhos de Luiz Galricho (de alcunha o Pataco), era gente que vinham a casa de 15/15 dias,  e já na vila depois do cavalo guardado nas cocheiras da Abegoaria  da casa, passavam pelo escritório do patrão e recebiam a soldada. O barbeiro, era o passo seguinte e não deixavam de passar pela taberna, bebendo o seu copito, mas aí muitas vezes esqueciam-se que tinham uma prole de filhos para alimentar e gastavam um pouco do dinheiro acabado de receber.

 

cAMPINOS.pngIsso acontecia com o Ti, Toino Pataco, o que dava azo ao filho Zé, o mais velho, muitas vezes noite dentro, lá ia buscar o pai à taberna do tio e, daí começou o seu azedume ao vinho.

 O Toino Pataco, era aguardado pela Emília, sua esposa , que vinda da beira ficou por cá, agora rodeada de filhos, mesmo trabalhando no campo tinha em casa, na Rua d`Água, algumas ovelhas, e cabras no quintal, de onde ganhava uns tostões fazendo queijos.

O meu avô paterno, no dobrar do séc. XX, já vivia numa casa abarracada, na estrada do Rego - onde tinha umas cabeças de gado. Das vacas tirava o seu sustento, vendendo leite à garrafa.

Ali, na década de 60 gostava de me contar a sua vivência de campino - recordações que registei (2), mas já pesado de corpo e alma, ainda bebia o seu copito, e quando isso acontecia, ficava toldado, e era de vê-lo, com uma garrafa no alto da cabeça, bem equilibrada, e gaiata de beiços, tentando dançar o fandango, como o fazia em novo, quando manejava bem o pampilho, naquela arte de campino e, procurava os bailes das barroas que vinham fazer as temporadas de trabalho nos campos da Lezíria, ali juntinho à borda d`água. O Ti, Tonho Pataco, fez a última jornada de campo, guardando éguas afilhadas, na Casa Agrícola de Salvaterra, José de Menezes & Irmão.*José Gameiro

O Autor não segue o Acordo Ortográfico de 1990

*****

Textos Apoio: (1) Esta taberna, foi descrita no Conto o” Último Dia do Lobo em Salvaterra”, de José Amaro - década de 30, séc. XX * (2) Livro Pedaços da Tauromaquia na vila de Salvaterra de Magos- Autor

Fotos: 1) Campinos da Casa Agricola Roberto & Roberto, e do Autor 

*José Gameiro

publicado por historiadesalvaterra às 18:14
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO - Voltei a ver os Retábulos do Tecto, Valeu a pena esperar 35 anos

OS PAINEIS DO TECTO APARECERAM  - VALEU A PENA ESPERAR, 35 ANOS!

Continuam a esperar melhores dias na esperança de um qualquer Mecenas que, suporte os elevados custos da sua reparação!

“De manhã, o tempo já não mostrava sinais de tanto vento agreste!

Durante o dia e noite anterior, sentiu-se aqui em Salvaterra de Magos, as rajadas que tinham fustigado o pais - o vento chegou em alguns momentos a rondar os 150 Kms/hora, registados em Lisboa.  Naquele dia 11 de Novembro de 1979, eram cerca das 17,00 horas,  estava eu, dentro de água da cheia, ali em frente à taberna do Camilo, para obter algumas fotos da capela da Misericórdia, que já mostrava algumas rachas nas paredes – ameaçando cair!

O que se esperava aconteceu!

 

2 Sem nome.pngA parede – lado norte caiu, sendo acompanhada do desabar do telhado e algumas divisões daquele templo religioso,  uma construção aqui conhecida já no séc. XVII.

As suas telas que cobriam o tecto, estavam no chão!

Dias depois fez-se a limpeza, e aquelas painéis que, mostram passagem da vida religiosa da Virgem Maria, foram depositadas na Capela real – esperando melhores dias.

Houve um contacto para a sua reparação, com a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, na área do restauro, visto os custos serem de levada monta – insuportáveis  para a Santa Casa da Misericórdia da terra. Com o apoio da Câmara, conseguiu-se que durante dois anos, sem custos, ali estiveram alunos em fim de curso.

 Os retábulos depressa dali desapareceram!

 Anos depois, o Jornal Vale do Tejo-JVT, com redação em Salvaterra, publicou uma reportagem sobre o paradeiro daqueles retábulos e, a jornalista Sandra Pereira, pediu-me o empréstimo de algumas fotos, daquele sinistro que vitima do tempo. O então Provedor da Santa Casa; Armando Oliveira, disse: existem outras prioridades – pois os custos das reparações são incomportáveis!

 Quanto ao seu paradeiro, nada disse e, mesmo a miúdas vezes que lhe perguntávamos, a resposta era lacónica e, em 2016, graças à gentileza do novo Provedor da Santa Casa de Salvaterra de Magos; Francisco Viegas, vi aqueles quadros numa arrecadação daquela Instituição ( Sede, Lar/Centro de Dia) – mal arrumados e lá tirei algumas fotos.

Valeu a pena esperar, 37 Anos para voltar a vê-los!

Continuam a esperar melhores dias na esperança de um qualquer Mecenas que, suporte os elevados custos da sua reparação!

*José Gameiro

 Nota: 1) Os painéis no tecto da Capela da Misericórdia - 1950 * 2)Tecto da Capela sem os Retábulos ( Passagens da Vida da Virgem Maria) - 1980 * 3) Um dos Quadros Empilhados - 2016 *As paredes da Capela, acabadas de cair - 1979 *4) O Provedor; Francisco Viegas, mostra os painéis empilhados - 2016 * Fotos do autor 

publicado por historiadesalvaterra às 15:22
link | comentar | favorito
Domingo, 1 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO - A ALBERGARIA MEDIEVAL EM SALVATERRA DE MAGOS

                                A ALBERGARIA MEDIEVAL EM SALVATERRA de MAGOS

A peregrinação desta parte da Hispânia junto ao Oceânio, ao túmulo do Apóstolo, Santiago, na Galiza, que segundo algumas histórias, teve inicio e foi motivada, com a visita de Francisco de Assis, ao tumulo do ossário daquele que foi seguidor de Jesus Cristo. Os peregrinos usavam os antigos caminhos romanos, e teve tempos áureos nos séc. XI e XIII.

O edifício da Albergaria, construção já conhecida na Idade média, desde o reinado de D. Dinis, ladeava o sul da Capela da Misericórdia, ali a dois passos  do curso de água a caminho Tejo - ponto de entrada marítima de Salvaterra de Magos.

A existência de uma outra Ermida, com Hospício, no Largo S. Sebastião, para curar o povo da terra, dependia do Pároco da freguesia local. Ambas foram descritas nas Memórias Paroquiais da vila, incluídas no inquérito de 1758. Esta enfermaria, como a primeira que, já estava em desuso, acabaram destruídas com o terramoto de 1909 (1).

Fotos Sem nome.png

Com o decorrer dos tempos, quando os reis de Portugal, instalavam a corte durante alguns meses em Salvaterra, para gozar dias de recreio, D. Pedro II (1648-1706), o monarca que esteve num golpe, retirando a soberania do reino ao seu irmão; o rei D. Afonso VI e, desposou a cunhada, passou a ser hábito - rezar nas partidas e chegadas, na pequena Capela, perante a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

O povo esperava a passagem do cortejo e dava –vivas ao rei!

Sua Alteza, acompanhado de convidados e visitantes estrangeiros, manhã cedo participava em montarias, na Coutada real da vila. Nos despachos, não deixou de dedicar alguma atenção às carências nos monumentos da vila – o Paço real e a sua capela. receberam algumas obras, e os seus jardins foram aformoseados.

A Igreja Matriz, e a Capela da vala, também viram as despesas custeadas pelos cofres do reino e, segundo alguns documentos o tecto do pequeno templo -forrado com painéis, com passos da vida religiosa foram conservados(2).  Nos folguedos pelas ruas da vila, os sete príncipes reais, acompanhados das amas, não deixavam de rezar na pequena Ermida e visitar os doentes na Albergaria anexa. Ali, perto no cais, não lhes dava enfade e era motivo de agrado, verem o trânsito dos barcos e dos pescadores, e  apreciavam os afazeres dos calafates.

A jovem princesa; D. Isabel Luísa Josefa de Bragança (1669-1690), Princesa da Beira, guardava algumas horas depois do almoço para bordar, e manifestou o seu desejo às suas camareiras, que gostaria de oferecer um Manto a N. Senhora da Conceição, com os seus bordados – para uso em dia de procissão, realizando-se a 8 de Dezembro, com as ruas cheias de devotos. Quando das obras, na capela, não deixou pedir ao rei – seu pai, que lhe fizesse mercê de autorizar, que usasse o seu pecúlio, custeando o custo de abrir duas portas, que passariam a ligar a Capela à Albergaria – para os peregrinos doentes, terem um acesso fácil e directo ao templo. As portas abertas no séc. XVII, estão agora à vista num espaço ajardinado!

*José Gameiro

**********

Nota:

(1)Na década de 60 do séc. XX, tendo o telhado do edifício anexo à capela, desaparecido, após o terramoto de 1909, apenas a sua parede na antiga rua Direita, ostentava em cima do portal uma pedra em mármore rosa – lembrando que ali existiu uma Albergaria. Essa placa foi transladada para a parede (muro) do fundo daquele novo espaço ajardinado. Obra custeada pelo lavrador; João Oliveira e Sousa que, vivendo numa moradia em frente, recebeu autorização da Câmara Municipal, para urbanizar aquele espaço com um ajardinado. 

(2) Com a cheia e vento, em 1979, parte da capela caiu, levando ao desabar do tecto. Recolhidos estes, estiveram alguns anos na Capela real, onde receberam alguns reparos * Mudados para uma dependência do Lar/Centro Dia da Misericórdia, ali aguardam a sua reparação.

*José Gameiro

*********

Doc. de recolha do Autor e elementos retirados do Livro “A Misericórdia de Salvaterra de Magos” – Autor Dr. José Asseiceira Cardador

Fotos:  Manto 2012, Jardim e Capela 2019, Do autor * Da, Princesa Isabel Luísa -  Faceboock

publicado por historiadesalvaterra às 19:17
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 28 de Novembro de 2019

CRÓNICA DO NOSSO TEMPO - O ÚLTIMO ALBARDEIRO, em Salvaterra de Magos no séc. XX.

CRÓNICA DO NOSSO TEMPO

O ÚLTIMO ALBARDEIRO, em Salvaterra de Magos no séc. XX.

Com a reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755, algumas das suas novas ruas, foram destinadas às oficinas das Artes e Ofícios. Os Albardeiros, também tinha a sua via de acesso, espaço que, ainda existia em 13 de Julho de 1825, conforme um anúncio publicado no jornal Gazeta de Lisboa, na sua página 676, de uma casa para alugar naquela artéria citadina.

Alguns dicionários de língua portuguesa do século XIX, não deixam passar em claro o sinónimo de Albardeiro, dando-lhe analogias com; “Diz-se de Pessoa que trabalha mal, sem cuidado ou sem habilidade. Indivíduo trapalhão; abaldeirado, abaldeiro. Homem mentiroso, enganador”.

Por ser uma actividade muito próxima da vida rural (fabricante de albardas para animais, especialmente dos muares e burros) ainda agora existem muitas ruas com esta toponímia em várias localidades por esse Portugal fora.  O Albardeiro, era uma profissão muito próxima do Correeiro, que chegavam a ter portas abertas, na mesma rua, muitas vezes a escassos metros.

Em Salvaterra de Magos, só é conhecido a existência de um Albardeiro – Rafael Pereira Júnior (conhecido na terra e arredores, pelo Rafael Albardeiro), era homem que não lhe faltava trabalho, tinha como Ajudante o filho; O Gabriel Pereira, saído da sua vasta prole de sete filhos.

Tinha a porta aberta na vila, na E.N.118-2, ali à vista do Largo dos Combatentes e, contava entre a clientela os lavradores e criadores de gado, separando alguns animais mais rudes nos trabalhos de carga. As gentes rurais das freguesias do concelho, também gostavam deste artesão, mesmo tendo ao pé de casa – o Mercado Mensal de Marinhais, onde se vendiam estes Albardas e Alforges, que usavam nas suas bestas de transporte pessoal, e dos produtos do amanho da terra.

Os jumentos, também eram usados na tiragem da água dos poços, através das noras, eram “limpos de vestimenta”“ e só usavam os cabrestos e tapa-olhos.

Albatdeiro Sem nome.png

O Artesão: Rafael Pereira, era um mestre de ofício, onde se trabalhava a palha de centeio que, “vestia” com serapilheira, couro de carneiro e, até algum ferro, componentes que componham as Albardas (1). A palha era batida de maneira que não fica-se muito mole, depois metida num pano enrolado, que o ajudante costurava, fechando-o!
O Alforge, sendo um utensilio de transporte, era feito com esmero num tecido grosso bem colorido.

O seu Ajudante; o filho Gabriel, que seguiu o pai, e continuou depois da sua morte, até usou o espaço da oficina para habitação, e onde lhe nasceram alguns filhos. Muitos anos depois da sua morte, a casa estando desabitada – caiu o telhado e, a que foi a porta de entrada foi “emparedada”.

Nota: (1)Na Lezíria ribatejana, pouco se chamava à Albarda – Molim, que era um pouco diferente, “Espécie de almofada ou chumaço em que assenta a canga dos bois“ ou o cangalho dos cavalos, quando tirantados à carroça de carga”.

José  Gameiro

@ Fotos: 1) do autor *2, 3 e 4) Facebook

publicado por historiadesalvaterra às 16:28
link | comentar | favorito

.mais sobre o autor

.pesquisar

 

.links

.arquivos

. Maio 2020

. Abril 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Abril 2016

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Março 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Dezembro 2010

. Outubro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Abril 2008

. Dezembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

.tags

. todas as tags

.Maio 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29
30

31


blogs SAPO

.subscrever feeds