Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020

CRONICA DO NOSSO TEMPO - UM FORNO DE PÃO, COMUNITÁRIO EM SALVATERRA

              UM FORNO DE PÃO – COMUNITÁRIO EM SALVATERRA DE MAGOS

Na Grécia, tal como em Roma, já se conhecia o método de fazer o pão, como na Palestina. Com o movimento do Império Romano, os seus exércitos ao instalarem-se nas terras da Lusitânia, deixaram por aqui esta forma de comer o pão de farinha fermentada.

No início da Idade média, por volta do ano 476, a cosedura do pão em forno, é produto consumido de lés-a-lés em Portugal, mas é na idade moderna, no séc. XVII, em França, que se desenvolve uma nova técnica de fabrico de panificação.

Com o aparecimento da mecanização, no séc. XIX, já se usavam as amassadeiras hidráulicas, que os padeiros começam por rejeitar, pois a mão-de-obra humana passa a ser substituída, o que em Portugal também leva tempo a aceitar, pois o pão era amassado manualmente, e o alimento base das famílias.

A lenha, era o combustível usado nos fornos, e guardado ao lado, em casa própria, depois de recolhido nos pinhais e charnecas, após o corte da primavera. Os “fornos comunitários”, eram os mais utilizados pelos habitantes das localidades a norte do país, com o objectivo de cozer a massa do centeio, trigo e milho, colheitas das suas  terras de cultivo. Por ser um alimento pobre, também entrava na mesa em dias festivos, composto e adornados com iguarias, conforme a tradição popular de cada região.

Trav do Forno 1990.png

Em Salvaterra, segundos algumas informações, a forma comunitária também era usada na povoação, existindo registos que no séc. XVIII, havia uma fornalha aquecida a lenha, na pequena artéria entre a rua de S. António e rua Direita, da vila.

Com o decorrer dos tempos, o povo ali ainda nos primeiros lustros do séc. XX,  comprava o pão num balcão improvisado, pelo forneiro de nome Ramalho, na sua casa, ali ao lado, na esquina da rua direita.

 Os povos dos lugares do concelho aqui também vinham trocar alguns sacos de sementes por pão cosido. Na década de 40, do séc, XX existia na Glória do Ribatejo, um forno de pão, tipo comunitário, explorado pela “Ti Teresa”, dando resposta às necessidades da população. Os fregueses entregavam a massa do pão, e a lenha, à “forneira” que tinha direito a uma “maquia” - uns pães por fornada, em forma de pagamento.

Forno 1939 e Amassando Farinha Gloria.png

– Nas famílias rurais que já tinham os seus fornos em casa, eram as mulheres que tinham este encarrego e quando da massa pronta, numa masseira/ ou, alguidar de barro, era bem “aconchegada”, numas mantas (para aquecer), pois assim levava 3 a 4 horas a levedar.  Naquele tempo usava-se a crença religiosa; - cada mulher do povo do concelho, lá fazia uma reza com o sinal da cruz; –  as orações não eram bem iguais;

– Na Gloria Ribatejo; “Abençoada sejas – Que já estás a Levedar!

                                      “Deus te acrescente, que és para muita gente!”

- Em Foros de Salvaterra; “ Por São Mamede e São Vicente, – Deus te acrescente!

                                                                         Que serás pão para muita gente!

                                                                 - Em Louvor do Santíssimo Sacramento! “

                                                                                             – Amém!”

- No Lugar do Granho: - S. Mamede te leve de, S Vicente te acrescente e S. João te faça pão! * É as mais brejeiros diziam; “Para que cresças tu… como as abas do me cú! “

Forno Granho.png

O pão era fermentado com alguma massa velha, e ficava com um sabor característico   a um travo àcido, e aroma avinagrado. Este sabor  era o mais usado em  Portugal,  costume que ainda se produz muito como: "pão de massa velha". O "pão alentejano" e muitas "broas minhotas" são exemplos disso.

Em 1936, entrou em laboração em Lisboa (Cruz Quebrada), a fábrica de Fermentos de origem holandesa, uma sucursal da empresa Nederlandsche Gist-en Spiritusfabribck, dedicada à fabricação desde 1869. Entre os padeiros do concelho de Salvaterra, que aceitaram convite para visitarem esta nova unidade fabril, estiveram; António Caetano Doutor e Francisco Peste que, já estavam a renovar os seus fornos, com amassadeiras mecânicas.

5 Fotos Foros Salvaterra - Joaquim Carlos  Moreira

Depressa a clientela, em Salvaterra, passou a consumir a Carcaça e, o papo-seco, pães da mesma massa, muito macios, que veio a ter os seus prediletos consumidores na vila. Com o avanço da industrialização, a forma comunitária de comprar pão perdeu aqui a importância sócio/cultural e, económica de outros tempos.

Num ápice aqui e ali, já se viam grandes novas chaminés de tijolo a sobressair os telhados. O velho forneiro Ramalho; seguiu-lhes os passos e fechou o forno da vila. Abriu uma moderna padaria na antiga rua do Pinheiro (rua Dr. Miguel Bombarda), a que deu o nome – Padaria Aurora, colocando no espaço do balcão, um azulejo com a prece: “Deus Abençoe esta Casa”.

2 Padaria Aurora Sem nome.png

A pequena e antiga artéria, em 1945, como a recordar que ali existiu um Forno Comunitário em Salvaterra de Magos. recebeu do executivo municipal a toponímia “Trav. do Forno”.

Joaquim Hipólito Ramalho, o filho mais velho do “Forneiro Ramalho” que, aprendeu desde menino a arte de amassar e fazer pão, depois da morte do pai, seguiu-lhe os passos e passou a explorar aquele forno da família.

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No dobrar do séc. XX, os antigos padeiros foram rareando, e na falta de novos aprendizes, em 1959, um vasto grupo do concelho, ajuntaram-se e criaram a; “Liga Panificadora Salvaterrense”, num terreno comprado ali ao lado da Praça de Toiros. Muitos deles, passaram a ser assalariados da empresa.

*José Gameiro

Nota: O autor não seguiu o acordo ortográfico de 1990

- O Texto completo publicado; www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt

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 Doc. Pesquisa e Fotos:

*Uma Glória do Mundo: Abril 2006 - Glória do Ribatejo

agloriadomundo.blogspot.com › 2006/08 * Roberto Caneira

*Doc. de pesquisa do autor, em várias fontes , incluídos no: Caderno Apontamentos  Nº 36 – Colecção “Recordar Também é Reconstruir”; Salvaterra de Magos – Toponímia da Vila Através dos Tempos –  Trav. do Forno - Pág. 51/52, do Autor, publicado em: - Google José Gameiro Issuu

*Fotos do Forno Recuperado, no Granho - Rosa Gomes 2020, que recolheu as Rezas e Benzeduras, junto da idosa; Ana Veríssimo da Silva

*Fotos do Forno - Rezas e Benzeduras em Foros de Salvaterra – Recolha; Joaquim Carlos Moreira

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Terça-feira, 31 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO - A Minha Primeira Grande Penda de Natal

RECORDANDO!
A MINHA PRIMEIRA GRANDE PRENDA DE NATAL
Em Salvaterra de Magos, o tempo de Natal já andava afadigando as jovens mães, mesmo nos trabalhos no campo. Aí, conversavam umas com as outras: – Não sei o que comprar este ano para por no sapatinho do meu filho!

O Ano de 1948, estava chegando ao fim, as vindimas já tinham acabado e, a ceifa do arroz estava prejudicada pela chuva que não deixava de cair havia alguns dias.
Minha mãe, na loja do Francisco Henriques, lá comprou; oleo para fritar, farinha e arroz, canela e outras especiarias. Não deixou de comprar umas broas de milho e alguns chocolates, entre outras pequenas goluseimas para mim.

Meu pai, já tinha guardado em casa uma abóbora, que colheu na sua Calhandra/Boiça (pequena horta), lá para os lados do Tejo, tinha já a promessa do seu padeiro; Francisco Peste, que lhe oferecia um pedaço de fermento.

Na tarde do dia 24 de Dezembro, minha mãe não foi trabalhar – o patrão, tinha dado ao rancho o meio dia!

De tarde, antes de me ir buscar a casa dos pais - meus avós, que moravam lá nos Quartos da vila, já tinha cozido a abóbora. Na mesa lá estavam à mão, a garrafa de aguardente que acompanhei meu pai  na compra, ao Adegueiro; José Rato, ali perto, na Adega do Dr. Lino, e o leite que os meus avós, lhe ofereceram!

A nossa casa era na rua Debaixo dos Arcos (Rua Heróis de Chaves), e a tarde já ia alta, quando meu pai chegou a casa – foi dispensado da Câmara municipal, onde trabalhava, e depressa lá foi amassando a farinha e a abóbora, num grande alguidar de barro. As laranjas estavam ali à mão num cesto de verga!

 Quando fazia a cobertura da massa com uma manta, para levedar, a vizinha; Mariana Costa (Paiva), mãe do António Carlos e da Maria Amélia, crianças da minha criação, bateu à porta trazendo um prato com umas fatias  de bolo podre, que não deixou de repartir da sua mesa - era uma especialidade de séculos na terra, e feito pelas gentes de maiores posses económicas, em épocas  festiva.

Meu pai, homem de “engenhocas” depressa de um fio de cobre fez um passador para a fritura dos velhozes (1), e na chaminé antiga de boca larga, lá foi num fogão a petróleo, fritando pedaços da massa, que pareciam ovos, enquanto minha mãe, ao lado num outro fogão, mexia com uma colher de pau, o arroz para fazer arroz doce. Eu, curioso acompanhava aquela azáfama dos dois!

Os potes com água, que minha mãe tinha ido buscar ao Curral do Freires, estavam por ali perto no chão. Aqueles doces, fariam a alegria da nossa mesa no dia de Natal.

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A noite já dava mostras da hora de curtir o sono, e lá ouvi meus pais – Zé, vai buscar o sapatinho para por na chaminé, o Pai Natal traz a tua prenda, ele vem visitar a nossa casa!

Nessa noite, dormi desassossegado – manhã cedo, lá estava num grande embrulhado, um ciclista de madeira. A minha primeira grande prenda de Natal, pois nos anos anteriores, tinha sido um par de meias!
José Gameiro

 

 

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Nota: O autor não segue o Acordo ortográfico de 1990
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(1) - voz do povo/ Dicionário – Filhoses

Foto: retirado do Facebook

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Domingo, 29 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO * MATAR O BICHO/ ou ENCHER O BANDULHO,

MATAR O BICHO/ ou ENCHER O BANDULHO,

era um hábito de linguagem das gentes que trabalhavam a terra na Leziria ribatejana, que vinha de gerações. Ainda só tinham passado 30 anos do século XX, já o Zé Pataco (alcunha que lhe vinha de família desde o seu avô; Luis Galricho), tinha grande aversão ao vinho e, não deixava passar a oportunidade para dizer aos filhos - maldito álcool, que tolda a alma e o espirito, causando tantos estragos numa familia.

 Realmente só em dias de festa lá acompanhava com uma bebida espirutuosa, pois o seu mata-bicho era sempre em casa, com uma caneca de café e  um pedaço de chouriço que sobrava da ceia, num naco de pão.

No entanto já chefe de família, na época das vindimas, chegou a trabalhar nos lagares da grande Adega que existiu no Largo dos Combatentes - bem dentro da vila de Salvaterra de Magos e, aí com o seu Adegueiro; Manel da Repolha, aprendeu a fazer o Vinho, Aguardente e Bagaceira. Anos mais tarde, como gostava sempre de aprender mais e melhor, já na sua Calhandra, ali para os lados do Tejo, plantou uma Ginjeira, e todos os anos colhia as ginjas para fazer em casa uma deliciosa bebida - Ginja com elas!

As arrelias que passou por causa das tabernas, era coisa que o acompanhava e, se lembrava bem daquele tempo, poucos anos tinham passado depois que terminou a guerra mundial, havia poucas tabernas em Salvaterra, podiam-se contar pelos dedos de uma mão. O João da Pança, o Vitorino Marreco, a Anunciada e o Artur Xavier. O homem rural, ao sair de casa, bebia nas tabernas da vila, o seu Mata-bicho - um copo de Aguardente, pois o Abafado era coisa que pesava no bolso.

Aquela hora da madrugada estavam em Jejum, tinham-se levantado com os primeiros cantos dos Galos (5 da matina), pois o almoço no campo era já pelas 10 da manhã, depois de umas 4 horas horas de bem cavar a terra.

- Os grupos juntavam-se na ponte da vala real, antes de iniciarem a caminhada a pé de uma boa hora de marcha, o trabalho começava ao nascer do sol, e terminava depois deste se por, lá para os lados da serra de Sintra. Como diziam!

 

42366742_1976409269101665_2103747888650649600_n.jpNo cais, existiam a taberna do Miguel, e uma outra pequena, da família de Artur Pinto. Esta, que mal dava para meia dúzia de pessoas em pé, por vezes era aí o seu ultimo Mata-bicho, e se trocavam a saudação de “um Santo Dia” com os Pescadores e Marítimos, que por lá já andavam. De regresso a casa, o luz-fusco já os acompanhava, e alguns que moravam na Azinhaga da vila,depois da ceia, lá davam um salto à taberna do João da Pança,sendo um homem mediado de altura, usava além do um cinto uns suspensórios de tiras de cabedal para segurar as calças - a alcunha, veio-lhe por ter o estômago muito dilatado.

Ali, jogavam uma cartada da bisca, e bebiam um copito. A casa tinha um pequeno pial em pedra à porta, que dava jeito nos dias de verão, para estarem à conversa e fumarem uma cigarrada!

- Alguns esqueciam-se do tempo, e regressavam já com a cabeça a toldar - em casa havia ralhete: a mulher sempre se atrevia a dizer, já vens com o bandulho cheio, e os rapazes sem comer na mesa, porque não há dinheiro para o comprar na loja da Celestina.

 

2 Sem nome.pngO Vitorino Marreco (alcunha desde menino por ter uma anomalia na coluna, primeiro foi aprendiz de alfaiate), era o 7º e último irmão do Ti Toino Pataco. Estava estabelecido, na rua da Farmácia, a sua clientela era mais de tarde e noite, por ali paravam os mestres de oficio, que se entretinham até à hora de curtir o sono. As 12 badaladas se ouviam no sino da torre da Igreja, ali ao lado. Esta taberna - veio mais tarde a ser explorada por Sebastião Cabaço, e ainda por Manuel Nunes, homem conhecido por Manel Renaca.

- Na Taberna da Anunciada, a meio da pequena Azinhaga, no Arneiro da vila, logo ao cair da noite era colocada no portal a lanterna com a vela acesa. Era local de encontro dos homens da urbe - gente dos ofícios e da escrita, por ser sitio mais escondido. para se jogar o chinquilho, no seu quintal (1). O povo rural era quase todo analfabeto.

- A rudeza da vida no campo, iniciada desde menino, a forma de alimentação e o beber sem rega, levava muito homem poucos anos depois de viverem meio século, já serem vistos como gente velha!  - Os campinos, aqueles que andavam guardando os toiros bravos na Leziria, tal como todos os 3 irmãos, filhos de Luiz Galricho (de alcunha o Pataco), era gente que vinham a casa de 15/15 dias,  e já na vila depois do cavalo guardado nas cocheiras da Abegoaria  da casa, passavam pelo escritório do patrão e recebiam a soldada. O barbeiro, era o passo seguinte e não deixavam de passar pela taberna, bebendo o seu copito, mas aí muitas vezes esqueciam-se que tinham uma prole de filhos para alimentar e gastavam um pouco do dinheiro acabado de receber.

 

cAMPINOS.pngIsso acontecia com o Ti, Toino Pataco, o que dava azo ao filho Zé, o mais velho, muitas vezes noite dentro, lá ia buscar o pai à taberna do tio e, daí começou o seu azedume ao vinho.

 O Toino Pataco, era aguardado pela Emília, sua esposa , que vinda da beira ficou por cá, agora rodeada de filhos, mesmo trabalhando no campo tinha em casa, na Rua d`Água, algumas ovelhas, e cabras no quintal, de onde ganhava uns tostões fazendo queijos.

O meu avô paterno, no dobrar do séc. XX, já vivia numa casa abarracada, na estrada do Rego - onde tinha umas cabeças de gado. Das vacas tirava o seu sustento, vendendo leite à garrafa.

Ali, na década de 60 gostava de me contar a sua vivência de campino - recordações que registei (2), mas já pesado de corpo e alma, ainda bebia o seu copito, e quando isso acontecia, ficava toldado, e era de vê-lo, com uma garrafa no alto da cabeça, bem equilibrada, e gaiata de beiços, tentando dançar o fandango, como o fazia em novo, quando manejava bem o pampilho, naquela arte de campino e, procurava os bailes das barroas que vinham fazer as temporadas de trabalho nos campos da Lezíria, ali juntinho à borda d`água. O Ti, Tonho Pataco, fez a última jornada de campo, guardando éguas afilhadas, na Casa Agrícola de Salvaterra, José de Menezes & Irmão.*José Gameiro

O Autor não segue o Acordo Ortográfico de 1990

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Textos Apoio: (1) Esta taberna, foi descrita no Conto o” Último Dia do Lobo em Salvaterra”, de José Amaro - década de 30, séc. XX * (2) Livro Pedaços da Tauromaquia na vila de Salvaterra de Magos- Autor

Fotos: 1) Campinos da Casa Agricola Roberto & Roberto, e do Autor 

*José Gameiro

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Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO - Voltei a ver os Retábulos do Tecto, Valeu a pena esperar 35 anos

OS PAINEIS DO TECTO APARECERAM  - VALEU A PENA ESPERAR, 35 ANOS!

Continuam a esperar melhores dias na esperança de um qualquer Mecenas que, suporte os elevados custos da sua reparação!

“De manhã, o tempo já não mostrava sinais de tanto vento agreste!

Durante o dia e noite anterior, sentiu-se aqui em Salvaterra de Magos, as rajadas que tinham fustigado o pais - o vento chegou em alguns momentos a rondar os 150 Kms/hora, registados em Lisboa.  Naquele dia 11 de Novembro de 1979, eram cerca das 17,00 horas,  estava eu, dentro de água da cheia, ali em frente à taberna do Camilo, para obter algumas fotos da capela da Misericórdia, que já mostrava algumas rachas nas paredes – ameaçando cair!

O que se esperava aconteceu!

 

2 Sem nome.pngA parede – lado norte caiu, sendo acompanhada do desabar do telhado e algumas divisões daquele templo religioso,  uma construção aqui conhecida já no séc. XVII.

As suas telas que cobriam o tecto, estavam no chão!

Dias depois fez-se a limpeza, e aquelas painéis que, mostram passagem da vida religiosa da Virgem Maria, foram depositadas na Capela real – esperando melhores dias.

Houve um contacto para a sua reparação, com a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, na área do restauro, visto os custos serem de levada monta – insuportáveis  para a Santa Casa da Misericórdia da terra. Com o apoio da Câmara, conseguiu-se que durante dois anos, sem custos, ali estiveram alunos em fim de curso.

 Os retábulos depressa dali desapareceram!

 Anos depois, o Jornal Vale do Tejo-JVT, com redação em Salvaterra, publicou uma reportagem sobre o paradeiro daqueles retábulos e, a jornalista Sandra Pereira, pediu-me o empréstimo de algumas fotos, daquele sinistro que vitima do tempo. O então Provedor da Santa Casa; Armando Oliveira, disse: existem outras prioridades – pois os custos das reparações são incomportáveis!

 Quanto ao seu paradeiro, nada disse e, mesmo a miúdas vezes que lhe perguntávamos, a resposta era lacónica e, em 2016, graças à gentileza do novo Provedor da Santa Casa de Salvaterra de Magos; Francisco Viegas, vi aqueles quadros numa arrecadação daquela Instituição ( Sede, Lar/Centro de Dia) – mal arrumados e lá tirei algumas fotos.

Valeu a pena esperar, 37 Anos para voltar a vê-los!

Continuam a esperar melhores dias na esperança de um qualquer Mecenas que, suporte os elevados custos da sua reparação!

*José Gameiro

 Nota: 1) Os painéis no tecto da Capela da Misericórdia - 1950 * 2)Tecto da Capela sem os Retábulos ( Passagens da Vida da Virgem Maria) - 1980 * 3) Um dos Quadros Empilhados - 2016 *As paredes da Capela, acabadas de cair - 1979 *4) O Provedor; Francisco Viegas, mostra os painéis empilhados - 2016 * Fotos do autor 

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Domingo, 1 de Dezembro de 2019

CRONICA DO NOSSO TEMPO - A ALBERGARIA MEDIEVAL EM SALVATERRA DE MAGOS

                                A ALBERGARIA MEDIEVAL EM SALVATERRA de MAGOS

A peregrinação desta parte da Hispânia junto ao Oceânio, ao túmulo do Apóstolo, Santiago, na Galiza, que segundo algumas histórias, teve inicio e foi motivada, com a visita de Francisco de Assis, ao tumulo do ossário daquele que foi seguidor de Jesus Cristo. Os peregrinos usavam os antigos caminhos romanos, e teve tempos áureos nos séc. XI e XIII.

O edifício da Albergaria, construção já conhecida na Idade média, desde o reinado de D. Dinis, ladeava o sul da Capela da Misericórdia, ali a dois passos  do curso de água a caminho Tejo - ponto de entrada marítima de Salvaterra de Magos.

A existência de uma outra Ermida, com Hospício, no Largo S. Sebastião, para curar o povo da terra, dependia do Pároco da freguesia local. Ambas foram descritas nas Memórias Paroquiais da vila, incluídas no inquérito de 1758. Esta enfermaria, como a primeira que, já estava em desuso, acabaram destruídas com o terramoto de 1909 (1).

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Com o decorrer dos tempos, quando os reis de Portugal, instalavam a corte durante alguns meses em Salvaterra, para gozar dias de recreio, D. Pedro II (1648-1706), o monarca que esteve num golpe, retirando a soberania do reino ao seu irmão; o rei D. Afonso VI e, desposou a cunhada, passou a ser hábito - rezar nas partidas e chegadas, na pequena Capela, perante a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

O povo esperava a passagem do cortejo e dava –vivas ao rei!

Sua Alteza, acompanhado de convidados e visitantes estrangeiros, manhã cedo participava em montarias, na Coutada real da vila. Nos despachos, não deixou de dedicar alguma atenção às carências nos monumentos da vila – o Paço real e a sua capela. receberam algumas obras, e os seus jardins foram aformoseados.

A Igreja Matriz, e a Capela da vala, também viram as despesas custeadas pelos cofres do reino e, segundo alguns documentos o tecto do pequeno templo -forrado com painéis, com passos da vida religiosa foram conservados(2).  Nos folguedos pelas ruas da vila, os sete príncipes reais, acompanhados das amas, não deixavam de rezar na pequena Ermida e visitar os doentes na Albergaria anexa. Ali, perto no cais, não lhes dava enfade e era motivo de agrado, verem o trânsito dos barcos e dos pescadores, e  apreciavam os afazeres dos calafates.

A jovem princesa; D. Isabel Luísa Josefa de Bragança (1669-1690), Princesa da Beira, guardava algumas horas depois do almoço para bordar, e manifestou o seu desejo às suas camareiras, que gostaria de oferecer um Manto a N. Senhora da Conceição, com os seus bordados – para uso em dia de procissão, realizando-se a 8 de Dezembro, com as ruas cheias de devotos. Quando das obras, na capela, não deixou pedir ao rei – seu pai, que lhe fizesse mercê de autorizar, que usasse o seu pecúlio, custeando o custo de abrir duas portas, que passariam a ligar a Capela à Albergaria – para os peregrinos doentes, terem um acesso fácil e directo ao templo. As portas abertas no séc. XVII, estão agora à vista num espaço ajardinado!

*José Gameiro

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Nota:

(1)Na década de 60 do séc. XX, tendo o telhado do edifício anexo à capela, desaparecido, após o terramoto de 1909, apenas a sua parede na antiga rua Direita, ostentava em cima do portal uma pedra em mármore rosa – lembrando que ali existiu uma Albergaria. Essa placa foi transladada para a parede (muro) do fundo daquele novo espaço ajardinado. Obra custeada pelo lavrador; João Oliveira e Sousa que, vivendo numa moradia em frente, recebeu autorização da Câmara Municipal, para urbanizar aquele espaço com um ajardinado. 

(2) Com a cheia e vento, em 1979, parte da capela caiu, levando ao desabar do tecto. Recolhidos estes, estiveram alguns anos na Capela real, onde receberam alguns reparos * Mudados para uma dependência do Lar/Centro Dia da Misericórdia, ali aguardam a sua reparação.

*José Gameiro

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Doc. de recolha do Autor e elementos retirados do Livro “A Misericórdia de Salvaterra de Magos” – Autor Dr. José Asseiceira Cardador

Fotos:  Manto 2012, Jardim e Capela 2019, Do autor * Da, Princesa Isabel Luísa -  Faceboock

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Quinta-feira, 28 de Novembro de 2019

CRÓNICA DO NOSSO TEMPO - O ÚLTIMO ALBARDEIRO, em Salvaterra de Magos no séc. XX.

CRÓNICA DO NOSSO TEMPO

O ÚLTIMO ALBARDEIRO, em Salvaterra de Magos no séc. XX.

Com a reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755, algumas das suas novas ruas, foram destinadas às oficinas das Artes e Ofícios. Os Albardeiros, também tinha a sua via de acesso, espaço que, ainda existia em 13 de Julho de 1825, conforme um anúncio publicado no jornal Gazeta de Lisboa, na sua página 676, de uma casa para alugar naquela artéria citadina.

Alguns dicionários de língua portuguesa do século XIX, não deixam passar em claro o sinónimo de Albardeiro, dando-lhe analogias com; “Diz-se de Pessoa que trabalha mal, sem cuidado ou sem habilidade. Indivíduo trapalhão; abaldeirado, abaldeiro. Homem mentiroso, enganador”.

Por ser uma actividade muito próxima da vida rural (fabricante de albardas para animais, especialmente dos muares e burros) ainda agora existem muitas ruas com esta toponímia em várias localidades por esse Portugal fora.  O Albardeiro, era uma profissão muito próxima do Correeiro, que chegavam a ter portas abertas, na mesma rua, muitas vezes a escassos metros.

Em Salvaterra de Magos, só é conhecido a existência de um Albardeiro – Rafael Pereira Júnior (conhecido na terra e arredores, pelo Rafael Albardeiro), era homem que não lhe faltava trabalho, tinha como Ajudante o filho; O Gabriel Pereira, saído da sua vasta prole de sete filhos.

Tinha a porta aberta na vila, na E.N.118-2, ali à vista do Largo dos Combatentes e, contava entre a clientela os lavradores e criadores de gado, separando alguns animais mais rudes nos trabalhos de carga. As gentes rurais das freguesias do concelho, também gostavam deste artesão, mesmo tendo ao pé de casa – o Mercado Mensal de Marinhais, onde se vendiam estes Albardas e Alforges, que usavam nas suas bestas de transporte pessoal, e dos produtos do amanho da terra.

Os jumentos, também eram usados na tiragem da água dos poços, através das noras, eram “limpos de vestimenta”“ e só usavam os cabrestos e tapa-olhos.

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O Artesão: Rafael Pereira, era um mestre de ofício, onde se trabalhava a palha de centeio que, “vestia” com serapilheira, couro de carneiro e, até algum ferro, componentes que componham as Albardas (1). A palha era batida de maneira que não fica-se muito mole, depois metida num pano enrolado, que o ajudante costurava, fechando-o!
O Alforge, sendo um utensilio de transporte, era feito com esmero num tecido grosso bem colorido.

O seu Ajudante; o filho Gabriel, que seguiu o pai, e continuou depois da sua morte, até usou o espaço da oficina para habitação, e onde lhe nasceram alguns filhos. Muitos anos depois da sua morte, a casa estando desabitada – caiu o telhado e, a que foi a porta de entrada foi “emparedada”.

Nota: (1)Na Lezíria ribatejana, pouco se chamava à Albarda – Molim, que era um pouco diferente, “Espécie de almofada ou chumaço em que assenta a canga dos bois“ ou o cangalho dos cavalos, quando tirantados à carroça de carga”.

José  Gameiro

@ Fotos: 1) do autor *2, 3 e 4) Facebook

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CRONICA DO NOSSO TEMPO - Salvaterra de Magos, Mestres e Profissões Artesanais no Séc. XX

MESTRES E PROFISSÕES ARTESANAIS, QUE EXISTIAM
em Salvaterra de Magos, no dobrar do séc. XX

A Revolução Industrial, que alguns defendem ter inicio, na Inglaterra em 1760, mas outros autores referem que ela evoluiu nos anos de transição entre 1840 e 1870. Foi uma mudança lenta e teve sempre grande opositores, visto vir colidir com os hábitos vindos de séculos.

O séc. XX estava a meio e, em Salvaterra de Magos ainda trabalhavam os mestres Artesãos; Sapateiros e Aprendizes, à entrada de casa com a prancha de madeira sobre as pernas.
Os Latoeiros, Albardeiros, Colchoeiros, Correeiros, Carpinteiros de carros e Ferradores de animais, tinham porta aberta. Alguns Artífices como: o Latoeiro, nos seus afazeres já usavam ferramentas inventadas com a mudança da nova tecnologia; Ferros de repuxar de bola, chatos e curvos, Ferros de tornear, Pentes para abrir tarrachas, e o Ferreiro da Bigorna e Fole, depressa se tinham adaptado ao carvão betuminoso.

 

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OS FERRADORES DE ANIMAIS;
Pouco tinham evoluído nas ferramentas usadas, na sua forma de trabalhar. Um dia, sendo eu ainda menino, acompanhei meu pai - empregado municipal, na limpeza das ruas da vila, levou o Muar da Câmara, para ser ferrado à oficina do mestre ferrador; Vicente Cipriano ( conhecido pelo Vicente Moleiro – alcunha que lhe veio do pai, que chegou a ter Moinho de vento e azenha, lá para as bandas da Agolada.

A oficina (1), ficava na esquina da Rua d`Água, ali em frente ao grande celeiro de trigo da FNPT, que ligava ao Quartel dos Bombeiros, e estava pejada de clientela Foreira - gente, que aproveitava o tempo de Primavera (Março(Abril), época da tosquia dos Muares e Burros.
O mestre afadigava-se com trabalho, tendo a ajuda do filho; António Nicolau Marques Cipriano, que também era tratado por: António Moleiro.

O Vicente Moleiro, tinha jeito para fazer aqueles bonitos desenho (como as zebras) na anca/garupa das bestas, com o bico da tesoura, coisa que os ciganos faziam com destreza.

No regresso do animal, já calçado, à Cocheira Municipal (ficava com entrada nas traseiras do Grémio da Lavoura), o barbeiro; Alexandre Cunha – homem das fotos na vila, lá o chamou e tirou-lhe uma fotografia, a ele e ao animal, em frente do portão do Jardim público.

Já no meu tempo de escola, brinquei muitos dias, na rua onde o mestre; Manuel Caetano Doutor, tinha a sua oficina de Ferrador. O Celeiro da Vala - construção do séc. XVII, ficava mesmo em frente, ali resvés com o cais. O mestre; Manuel Doutor, tinha a sua clientela nos lavradores da vila, ferrando o gado cavalar e Muar. Por vezes num apetrecho em madeira (tipo gaiola), ferrava o gado vacum de trabalho que, era imobilizado com cintas através da barriga.

Estes mestres ferradores, além de chamarem a si, o trabalho de cravar o canelo – ferradura apropriada para os bovinos, em virtude destes possuírem duas unhas, percebiam muito de doenças de animais, especialmente de infestações que inchavam os intestinos e, substituindo os veterinários, tinham conhecimentos que vinham de gerações e, assim usavam remédios caseiros que faziam, com drogas muitas vezes comprados nas farmácias.

Os remédios eram introduzidos na boca dos padecentes de barriga inchada, através de “garrafadas”, depois aconselhavam os donos a fazerem grandes caminhadas, com os doentes e, estes mostrando sintomas de já estarem (des)ventados - expelindo gazes!

Não capavam porcos, era um trabalho que consideravam inferior para a sua arte, e havia os Capadores, gente especializada que ia às pocilgas dos clientes, no concelho.O Manuel Doutor, tinha um ajudante – o ferrador; Manuel Vicente dos Reis, conhecido na terra, pelo Manel Ferrador. e um meio-oficial, o aprendiz; Manuel Rita Santos Ferreira (O Manel Magongo), que já dava umas boas marteladas – uma no cravo, outra na ferradura!
O Manel Ferrador, tinha um hobby, era forcado, nos Grupos; Adelino de Carvalho e do Manuel Faia. Tinha dia que não aparecia ao trabalho, devido às mazelas sofridas nas arenas.

Após a morte do mestre; Manuel Doutor, o Manel Ferrador, abriu uma oficina numa pequena casa, entre a oficina do ferreiro; António Ferreira (conhecido pelo Peluço), e a cocheira municipal. Durou pouco tempo, veio a falecer em Maio de 1959.

O Magongo, abriu portas ali ao lado, na antiga oficina que foi usada pelo carpinteiro de carros; António Morais. Mais tarde esteve na Glória do Ribatejo, e teve trabalho, em Muge, na Casa Cadaval, ainda fez uns “biscates”, até que deixou a profissão.
*José Gameiro

Nota: (1) Espaço ocupado com a construção da nova Estação s CTT, inaugurada em 1960
Fotos: 1) Antiga Oficina do Ferrador . Manuel Catano Doutor * Av. José Luís Brito Seabra * Foto Autor
2) Manel Magongo , trabalhando numa Oficina na Glória do Ribatejo
3) Manel Magongo – no Jardim do Largo dos Combatentes * Foto - Autor em 05,11, 2019

publicado por historiadesalvaterra às 16:15
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CRONICA DO NOSSO TEMPO - Bolo Podre, um doce da Culinária do Povo

O BOLO PODRE - UM DOCE QUE AS MOÇAS, de Salvaterra, ofereceram ao rei D. Miguel.

O nosso bom amigo José Luis Espada-Feyo, não deixou, no seu Fb, passar em claro a data de nascimento do rei D. Miguel, que ocorreu no dia 26 de Outubro e dedicou-lhe um post.

.o texto rico em pormenores (aconselhamos a ser lido), sobre aquele monarca que, tendo saído de Portugal, com os seus 5 anos de idade - quando da fuga da família real para o Brasil, no séc. XIX, e veio a ocupar algumas páginas da história do pais onde nasceu, numa guerra civil que manteve com seu irmão D. Pedro.

Bolo Podre.png

Numa das suas estadias no Paço real de Salvaterra, por volta de 1830, tendo atravessado o rio Tejo, visitou a povoação de Valada, onde se reuniu com os seus apoiantes e, quando do seu regresso foi recebido pelas Moças(1), que em lugar do beija-mão real, ofereceram ao rei, e à sua comitiva - em pequenos cestos forrados a linho, o Bolo Podre, uma doçaria da terra, feito à base de farinha alva, gema de ovos, canela e erva-doce, era consumido naquele tempo pelo povo da Lezíria, em dias de festas.

*José Gameiro

Nota: (1) ver o III Volume "Crónicas do Nosso Tempo" - Crónica Nº 50 * Doces da Nossa Terra* Pág 102 e 103

*Foto Google - Doces do Ribatejo

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CRÓNICA DO NOSSO TEMPO - O PAUL DE MAGOS , NA PRODUÇÃO DO ARROZ NO RIBATEJO

A PRODUÇÃO DO ARROZ NO RIBATEJO, ATRAVÉS DOS TEMPOS!

 A produção de arroz, aproveitando as bacias do Tejo, Sado e até mesmo nos rios da Beira Baixa, era cultura que ficou como herança dos Muçulmanos. O rei D. Sancho I, ao povoar os campos de Benavente, com imigrantes, não deixou de aproveitar as margens do rio Sorraia, para esta cultura de grãos que se davam bem em águas estagnadas.

O rei D. Dinis – o Lavrador, intensificou a agricultura na marguem sul do Rio Tejo, com imigrantes, vindos da Flandres (França), ocuparam as terras de Salvaterra, recebendo a vila regalias através do Foral de 1295. Séculos mais tarde, e por causa do risco de malária, doença com grandes surtos onde a mortalidade dizimava populações inteiras de gente que vivia junto das terras onde os charcos de água conservavam aluviões todo o ano.

Depressa o cultivo do arroz, foi proibido, e o enxugo das terras uma necessidade – mas, sempre se foi  mais densa proibiu-se a sementeira mas, pouco a pouco, foram sendo vencidas as reticências iniciais. No século XIX, já pode falar-se em cultivo sistemático e de um interesse manifesto e concreto da agricultura portuguesa na produção de arroz. Até então, a cultura de arroz era considerada ilegal, mas era tolerada. Deste modo inicialmente clandestino, os arrozais começaram a estender-se pela bacia dos rios e o governo começou a ponderar a viabilidade da produção de arroz, estabelecendo paulatinamente as condições que deviam presidir ao seu cultivo.

No início do século XX, em 1900, estabeleceram-se as bases para a produção de arroz em Portugal. Nos anos 30, os arrozais cresceram significativamente e as zonas de cultivo estenderam-se a outras regiões do país.

 Actualmente, o arroz é cultivado na bacia do Mondego, nas bacias da Beira Baixa, na bacia do Sado (Alcácer do Sal), e na bacia do Tejo, Ulme (Chamusca), Muge e Paul de Magos (Salvaterra de Magos). Os arrozais nas margens do Sorraia, no concelho de Coruche, fazem parte do desenvolvimento económico das populações de Coruche, Fajarda e Biscainho. Benavente enquanto concelho  também tem  áreas de terras junto ao Sorraia e Santo Estevão, com os arrozais, junto ao Almansor, um afluente do Tejo.

O concelho de Salvaterra de Magos, quando da permuta da vila, que D. João III, em 1542, fez com o seu donatário D. Fradique, para a doar a seu filho o infante; D. Luís, o contracto foi acompanhado do seu termo que, incluía Escaroupim, Cortes, Paul, Lizeirão e Romão Grande, entre outras coisas.

 Com as obras no novo Paço da vila e jardins iniciadas e concluídos em 1581, as suas terras boas para criação de gado, que se estendiam numa vasta leziria não tinham “enxugo”, com várias zonas de pântanos, tinham no sítio de Magos, maior relevância.

  Com D. João IV, nos últimos anos de reinado, iniciou-se em 1650 a abertura da grande vala, com os custos a cargo do cofre real, foram delineados em terras do Paul,  canteiros para arroz, pois a água à muito se esgotava regando outras sementeiras, desde a bacia do Ameixoeiro, até ao Tejo, no Bico da Goiva.

No dobrar do séc. XX, na Primavera, com o tempo a dar mostras de estio e, com as terras a secarem das cheias de inverno, iniciava-se os trabalhos de lavrar a terra, com filas de animais, e arados em filas profundas paralelas, hábitos que vinham de tempos remotos.

Os canteiros recebiam água através de pequenas aberturas nos valados, que marginalizavam o curso da vala-mãe, e voltavam a ficar encharcados, sendo tempo dos homens – com sacos ao ombro, fazerem o trabalho a lanço, dos grãos à mão.

 Também se usava a sementeira da planta – onde os ranchos de mulheres num andar de “recuas” iam plantando em linha as plantas do Arroz.  Na fase seguinte, havia a “Monda do Arroz”, onde as mulheres dentro de água/ lodo (usavam grande meias/canhões), para protecção das pernas, levantavam as saias até à barriga e bens seguras com uma cinta, tirava as ervas daninhas.

No inicio do Outono, (Setembro/Outubro) era feita a ceifa do Arroz, em trabalho manual, de conjunto ranchos de homens e mulheres, usando pequenas foices.

 

Com a introdução na agricultura da mecanização, que se vinha notando desde o fim da II guerra mundial, as ceifeiras debulhadoras, depressa ocuparam o espaço ocupado pela mão humana e animais.

 Após a construção do novo Cais da Vala Real, em Salvaterra, na década de 40, o escoamento dos produtos das culturas cerealíferas da zona, intensificaram-se com a portagem diária de dezenas de fragatas.

 Também o Paul de Magos, veio a beneficiar de acessos com as 2 pontes na nova EN 118, sob uma delas via-se a grande vala que transportava a água da nova Barragem de Magos (antigo Ameixoeiro), obra que durou cerca de 5 anos, e deu origem à criação da Associação dos Regentes do Paul de Magos, que diversificaram as suas culturas de regadio.

 A nova e moderna Estação de Orizicultura, escola com moderna  técnica para a produção de novos tipos de Arroz, no Paul de Magos, que passou a ser referenciada, porque  naquelas terras húmidas e encharcadas, aproveitavam o clima mediterrâneo com influência atlântica, veio a expandir-se e muito beneficiou com aquela nova rodovia nacional.

*José Gameiro

Salvaterra de Magos, 16 de Abril de 2019

 O autor não segue o Acordo Ortográfico de 1990

**********

 Notas de Apoio:

- Para ser bem sucedida, a produção de arroz por colheita depende, em Portugal, de três parâmetros cruciais: a temperatura, que pode afectar a planta se for extremamente baixa, a água disponível, que determina a superfície que pode ser semeada e que influencia o aparecimento de possíveis doenças, e a quantidade de radiação solar que os arrozais recebem.  A mais popular é o da sementeira directa, e a utilização de fertilizantes e outros produtos fitossanitários na protecção das culturas está amplamente divulgada.

- No conjunto da agricultura portuguesa, a situação actual do cultivo de arroz é favorável, com uma produção próxima da média comunitária. Apesar de as áreas de cultivo irem diminuindo, e de a tecnologia do sector apresentar algu O arroz é uma das plantas consumidas há muito tempo sendo muito difícil determinar com exactidão a época em que se começou a cultivar.

-  O arroz é uma planta da família das gramínias Oriza Sativa L. Os tipos de arroz mais produzidas são do tipo Japónica (Grão curto longo) e tipo Indico (Grão longo fino).

- O grão de arroz de sequeiro foi introduzido no Japão e na Coreia cerca de 1000 a.C.. A cultura alagada intensiva chegou à Coreia em 850-500 a.C. e ao Japão cerca do ano 300 a.C.

- Na Europa o arroz somente foi conhecido depois da expedição de Alexandre Magno à Índia (Vianna e Silva, 1969). Os árabes trouxeram-no para a Península Ibérica na altura da sua conquista em 711. Em meados do século XV chegou à Itália e depois a França, propagando-se esta cultura pelo resto do mundo em virtude das conquistas europeias. Em 1694 chegou à Carolina do Sul e no início do século XVIII à América do Sul.

- Foi no reinado de D. Dinis que surgem as primeiras referências escritas sobre a cultura do arroz, este destinava-se somente à mesada corte e dos ricos.

- Posteriormente no séc. VXIII foram dados incentivos á produção deste cereal principalmente nas regiões dos estuários dos principais rios de Portugal.

- No ano de 1900, a cultura do arroz era, em Portugal, limitada às “terras alagadiças dos vales do Vouga, Mondego, Sado, Mira e Guadiana”. Meio século depois, com o incremento verificado, o seu cultivo é efectuado em múltiplos municípios. Em Salvaterra  de Magos, ocupa a bacia do Tejo, com vastas áreas de pauis, como o paul de Magos,  Casa Cadaval, em Muge e,

- A expansão da cultura do arroz teve lugar por volta de 1909, após se ter elaborado um conjunto de regras para a preparação dos terrenos e da gestão da água, proporcionando assim, o cultivo de diferentes variedades de arroz.

-  Portugal produz cerca de 150 milhões de kg de ano, provenientes das principais zonas: Vale do Tejo, Sado e Mondego. Existem hoje, cerca de 25 mil hectares cultivados com arroz maioritariamente arroz tipo carolino, sendo que 70% é da variedade Aríete. mas limitações, a produtividade é aceitável.

- Documentos avulso – pesquisa do autor

Origem dos dados:

-  Livro: O Paço Real de Salvaterra de Magos (2ª edição) – pág. 14

-  O Arado -  Wikipédia, a enciclopédia livre

- Paul de Magos – Visitar Portugal

https://www.visitarportugal.pt › c-salvaterra-magos › paul-magos › paul

 - Ulme e Semideiro | Chamusca a gostar dela própria

https://chamuscagostardelapropria.wordpress.com › sobre-nos-pineus

- Orivárzea One Page Site | Orivárzea

- A Fábrica de Descasque de Arroz da Casa Cadaval

www. fcsh.unl.pt › noticias › documentos › ProjectoFbricaCasaCadaval2018

-  Os Arrozais em Coruche

Na lezíria ribatejana, com um emblemático arroz

www.revistadevinhos.pt › na-leziria-ribatejana-com-um-emblemático-arroz

 

Fotos: Origem –

1 António Oliveira (recriação de Homem lançar grãos de Arroz – Grupo Folclórico Granho – 2019)

2  Homem Lançar sementes de Arroz nos Arrozais

3 Rancho Mulheres Plantando Arroz nos Canteiros Paul de Magos (Foto Eduardo Gageiro – Revista Seculo Ilustrado)

3 Rancho Plantando Arroz  Paul de Magos (Foto Eduardo Gameiro – Revista Seculo Ilustrado)

4  Mulheres Monda Arroz – Paul de Muge (Casa Cadaval –Foto s/data) Recolha Rancho Granho 2019

5 Rancho Ceifando Arroz – Paul Muge (Casa Cadaval – Foto s/ data (Recolha Rancho Folclórico Granho

Arroz Sem nome.png

 

 

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Domingo, 6 de Outubro de 2019

Crónica do Nosso Tempo - A Inauguração do Parque de Campismo Escaroupim

O PARQUE DE CAMPISMO DE SALVATERRA DE MAGOS,

 já fez 40 nos de inaugurado!

A década de 70 do séc. XX, estava a meio e as sombras das pinheirocas do antigo cais da Palhota, na margem do rio Tejo ( construído e usado durante a construção do novo cais da vala real de Salvaterra de Magos),  já não eram usadas, pois o povo tinha encontrado outras sombras e um areal, logo no inicio do Dique que ligava a vila ao Escaroupim.

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Era um local aprazível para os seus fins de semana, e depressa ficou conhecido pela “Praia dos Tesos” , nome que a população usava com enfase,  pois até aí os mais abastados da terra iam de abalada, em tempo de verão,  até à Nazaré, Figueira da Foz e praias da linha de Sesimbra. As Termas também eram lugar de procura para uma boa estadia!

Naquele ano de 1979, uma cheia que durou alguns dias e, a meio  uma forte ventania, acabou por se juntar destruindo parte da Capela da Misericórdia e, provocando estragos na velha Ponte da vala real.

 

                                                                                                                                  

72382200_2714849895257595_5697218614281633792_n.jpEsta por ser uma via única de acesso aos campos, e até mesmo à pequena Aldeia dos Pescadores do Escaroupim, recebeu obras com um novo  Dique a substituir a pequena estrada de piso em pedra: No cimo da ponte foi construída uma comporta em ferro.

71333155_2714850165257568_7091531351236542464_n.jpA Federação de Campismo de Portugal (FCP), depressa interessou-se em construir  no Pinhal (pinheiros mansos), que vinha do reinado de D. Dinis, ali na margem do Tejo, com a aldeia dos pescadores Avieiros bem à vista.  O Município de Salvaterra, cujo executivo tinha à sua frente; Rafael João Alcântara Silva, também deu o seu parecer favorável ao processo cujas obras começaram e decorreram em bom ritmo.

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A inauguração do Parque ocorreu no dia 8 de Setembro de 1979, após os discursos apropriados do presidente da câmara e, do presidente da Federação de Campismo (FCP), aos festejos com a actuação dos bombeiros de Salvaterra, e do seu coro, juntou-se o Rancho Folclórico dos Avieiros do Escaroupim, com suas músicas e danças varinas.

O muito povo que ali acorreu , depressa viu-se misturado com o elevado numero de campistas que, de ora avante passaram a frequentar aquela nova obra que vinha enriquecer o turismo local.

*José Gameiro

Nota: O autor deste texto não aderiu ao acordo ortográfica de 1990

Fotos: Do Autor

publicado por historiadesalvaterra às 19:14
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