Quarta-feira, 2 de Outubro de 2013

VÃO DEPRESSA, AS TROPAS ESTÃO A PASSAR!.....

Esta crônica já foi publicado em tempos com o titulo " AS BOTAS DO MANEL GATO", porque o texto também se centra numa outra personagem, aqui o publicamos com outro titulo, devidamente atualizado e aumentado
Nos dias que passam, já não existem sapateiros de oficio, em meio século desapareceram cerca de 40 daqueles artesãos que existiam em Salvaterra de Magos.
As oficinas destes artesãos eram pequenos espaços, à entrada das suas habitações, sendo muito poucos os que tinham outro sitio para laborarem.
Alguns na rua, tinham junto da porta, um corvo, ou gralha que, amestrados diziam alguns palavrões, daquelas “azedas” que a clientela, ou quem passava gostava de ouvir dizer – era uma graça!
Entre eles, havia três figuras que andavam na boca do povo, pela sua originalidade, os Mestres; Vital Nuno Lapa, Manuel Gomes Serra, conhecido por Manel Gato e o seu primo Roberto Serra. O mestre-Vital, tinha a sua oficina na rua Direita, com a Trav. da Amoreira, era um homem alto, magro, mas já vergado pelo peso dos anos.


Era solteiro, os seus últimos tempos de vida, morreu em 1961, passou-os junto dos seus primos, a família Lopes Rosa, que tinham na vila, uma pequena empresa de fabricação de licores. No dobrar do séc. XX, ainda vivia a causa republicana com grande convicção entre amigos de infância.
Desde muito novo, que se fez seu partidário, sendo um dos fundadores do Núcleo existente aqui em Salvaterra de Magos. O seu entusiasmo era tal, que por volta de 1955, ainda dava azo a que o rapazio de idade escolar, como eu, o incomodava à porta da sua oficina.

Óh, mestre Vital.!.... Quando chegam as tropas do Gomes da Costa !.....
Tirando os olhos do calçado que tinha entre-mãos, em cima dos joelhos, a resposta vinha serena: Olhem!, Estão a chegar às Cavalariças.
Despachem-se; vão depressa, estão a passar não cheguem lá tarde !....

Repartindo o pequeno espaço da oficina, com o Jovem sapateiro; Julio Lopes André, que aprendera o oficio com um outro mestre - Augusto da Luz,, e procurando clientela própria, ali se instalou junto ao Mestre Vital Lapa, mesmo que temporariamente. Júlio André, pessoa calma e afável, compreensivo com a “canalha” lá mostrava um sorriso disfarçado, com as suas arremetidas ao idoso sapateiro, mantinha-se sempre calado, enquanto estas não passavam da marca, pois estava sempre atento com as arrelias do seu companheiro de oficina.
Um banco corrido de madeira, encostado à parede, dava para seis pessoas. e um pequeno armário já carcomido pelo tempo, sem os seus oito vidros nas duas portas da frente, pois era esquartejada em cada uma, eram o seu mobiliário. Nas prateleiras do móvel, guardava uma infinidade de pequenos instrumentos de trabalho como os Bucetes, que eram aquecidos em cima de um candeeiro a petróleo, para brunir as solas.

Outros instrumentos de trabalho como: os Costas Viras, as Cevelas de meia cana, a Régua de afiar as facas, a Cera para passar os fios de coser, a caixa das agulhas, as Grosas e Limas, pequenos, Martelos e Alicates, eram guardados num móvel, aliás onde também guardava o Candeeiro, quando não estava em uso e não sofre-se qualquer acidente da clientela.



O móvel, sendo de construção antiga apresentava-se esconso num dos lados, pois estava gasto num dos seus quatro pés.
O Mestre Vital, era de uma disciplina desusada, pois para tirar ou colocar qualquer peça no armário, tinha de abrir sempre a fechadura da porta, apresentando este duas pequenas janelas esquartejadas sem os oito vidros. Este seu cuidado, foi notado e deu brado durante anos, entre a população. Por ali paravam durante o dia, um grupo de velhos amigos, que usavam de malandrice, sabendo da sua grande paciência. Numa combinação prévia um ou outro, dava um pequeno encontrão no móvel e lá vinha o candeeiro de vidro ao chão. O mestre-Vital, recomendava - Tenham mais cuidado !... E, de imediato tirava algumas moedas do bolso do colete, encarregando um dos presentes em lhe fazer o favor de comprar um outro candeeiro, na loja do Gaspar Rapitalho (Gaspar Maria Alexandre), no Largo junto à câmara municipal. Os presentes, lamentavam o “acidente”, logo se solidarizavam, pagando o prejuízo, ficando o mestre-Vital muito agradecido e, enaltecendo o gesto praticado – era uma boa ação dos seus amigos.

Quando o candieiro, estava no chão, aquecendo o Bucete de ferro, o próprio Gaspar Rapitalho, seu velho amigo, deixava cair um pingo de cuspo, na fita que estava a arder, ficando esta como a soluçar (devido ao contacto da água com o petróleo) até que se apagava. O Mestre, logo dizia: Óh Gaspar, estão-te a vender o petróleo falsificado, deves reclamar !

O outro sapateiro que deixou fama, foi o Mestre Manuel Serra, conhecido por Manel Gato, tinha a sua oficina em casa, lá para os lados da Fonte do Arneiro. Era um homem que rondava os 50 anos, mas muito brincalhão, uma das suas diabrites, foi o caso das botas de um cliente. Naquele tempo, a população da vila, era maioritariamente rural, e muitos vinham a casa, só de quinze em quinze dias. De Sábado ao cair da tarde até Domingo à noite, altura em que regressavam ao campo. Por isso, o dia de Segunda-feira, era dia de sapateiros (dia de folga).

O calçado, especialmente a bota de homem, era de um cabedal ensebado e com cardas na sola, comprado em dia de feira anual, no mercado de Marinhais, ou nas lojas de fancaria da vila. Um certo dia, um cliente levou um par de botas para o mestre, pôr meias solas e cardá-las. O tempo combinado para o arranjo, há muito estava ultrapassado, os emissários enviados pelo cliente, passaram pela esposa, filhos e amigos.
A resposta era sempre a mesma. Estão a andar!
Certo dia, o dono das botas, encontrou o sapateiro, numa taberna existente junto da Igreja Matriz, com elas calçadas e, este com uma calma de gelar, respondeu ao reparo:
Rapaz, eu sempre disse a todos, que as botas estavam a andar, não viram, como tu viste, não tenho culpa, são ceguetas! Vai logo à oficina que estão prontinhas! Assim, ficaram famosas as botas do Manel Gato, que ainda à bem pouco tempo eram faladas pelas gerações mais antigas.

O mestre, Roberto Serra, tinha a sua casa, na rua Dr. Gregório Fernandes, mesmo ao lado do Custódio do carvão. No outro lado da rua existiam, além da farmácia, o barbeiro e uma grande loja, cujo empregado era conhecido pelo Manel Pechincha (Manuel Gonçalves da Luz).
O Roberto Serra, tinha duas filhas muito pequenas, a Rita e a Marta. Amiúdas vezes lá ia à loja comprar rebuçados, alegando; são para a minha Marta!...
Para matar o tempo, enquanto trabalhava a sola, chupava os rebuçados. Descoberto, o povo especialmente as mulheres - na compra daqueles pequenas guloseimas de açúcar , defendiam-se com alguma graça, não são para mim, são para a Marta, do Roberto Serra!.....


*****
* Cavalariças: o cruzamento na EN 118 (Santarém/Coruche * Gaspar Rapitalho = Gaspar Maria Alexandre
* Manel Pechincha = Manuel Gonçalves da Luz


JOSÉ GAMEIRO
publicado por historiadesalvaterra às 17:17
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