Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Uma Crónica histórica de Salvaterra - Ano 1931

 Portugal, ainda vivia anos conturbados, nos primeiros tempos da implantação do regime republicano. Em 1926, Salazar ainda que por poucos meses tinha estado como Ministro Finanças, a chefiar o Ministério, mas foi em 1930, que assumiu por inteiro a liderança de todo o Governo e as transformações económicas e politicas, no país começaram a ter lugar.

 Corria o ano de 1931, Salvaterra de Magos, pertencia à província da Estremadura. Era um pequeno concelho classificado de 3ª classe e fiscal da mesma ordem.  Estava centrado na bacia hidrica do rio Tejo, de onde recebia a sua riqueza económica, pois era uma povoação predominante rural, com seu povo mantendo as características puras do homem do campo, onde os trajes e as danças tinham parecenças com todo o povo rural da Lezíria.

 

 

 

 Eram hábitos que vinham de séculos, desde o seu povoamento, trazidos por gente que veio de Flandres, sul da França.  A Planície, insulada pelo rio, em tempos de agonia e tristeza, que também  lhe trazia a fertilidade que lhe davam a riqueza em época de semeadura e colheita.

 A vila, tinha cerca de 4.500 habitantes, e todo o concelho 9.500, a sua localização, estava distante  30 Kms da cidade de Santarém, que era o seu distrito, mas a religião católica pertencia ao Patriarcado de Lisboa, com S. Paulo como Orago da freguesia.

 No campo do foro judicial. o Dr. Alberto F. Barreiros, tinha escritório na Praça da República, da vila,  esgrimindo os conflitos da sua clientela, no tribunal de Coruche, a que pertencia o concelho de Salvaterra de Magos.

  Naquela época, as vias de comunicação, faziam-se por caminhos rudimentares. Logo a seguir à Ponte da Vala Real, ainda se viam vestígios da "Estrada do Meio", caminho atravessando o campo e a ponte de madeira, lá para os lados do Paul de Magos, até à saída de Almeirim, com o alto de Santarém à vista.  Uma barcaça, em tempos recuados serviu de passagem entre as duas margens.

Agora, para chegar a esta cidade usava-se o caminho de acesso à estação de Muge, e  por esta vila e freguesia, passava-se  Benfica do Ribatejo e Almeirim, atravessando a Ponte em ferro, construído no reinado de D. Luiz.

 

Para Lisboa, o caminho foi o mesmo do Convento, aproveitando-se as terras do campo, com passagem do rio através de um Cais/pontão, para Vila Franca de Xira, onde o comboio, completava a viagem até à capital do país.  Agora, também se utilizava o acesso a Benavente, pelo seu lado norte, pelo Calvário, por uma ponte em madeira, depois de se atravessar a densa mata do Gaspar Ramalho, seguindo-se a caminho de Samora Correia,  por último a recta do cabo, no Porto Alto, Vila Franca e o Pontão ficavam à vista, uns kns de distancia.

 O caminho de ferro, também tinha no Setil, um entroncamento de vias, que recebia os passageiros e mercadorias das estações de Muge e Marinhais. A população há muito tinha passado a viajar de camioneta da carreira, da Empresa de Viação Salvaterrense, explorada pela família Torroaes, na pessoa de José de Sousa Torroaes.  O transporte em diligência, era já uma recordação do passado.  Os barcos fragateiros, que tinham em Salvaterra, um grande cais de movimentação de mercadorias, para no Tejo, de e para Lisboa, Barreiro e Setúbal.

 

 

 

 

 

 

Na sua navegação, também iam rio acima, depois de passarem a Ribeira de Santarém até Constância. Entre as dezenas de embarcações de grande carga, dois pequenos barcos apropriadas para carreira (transportes de pequenos volumes, servindo o comércio e a indústria), chegavam a trazer embalagens com destino ao Alentejo: Évora, por Coruche, Couço e Mora, faziam duas vezes por semana o destino de Lisboa. Nestes pequenos barcos, um da família Roberto da Fonseca, e outro de Manoel Catharino, o povo de parcos recursos económicos, pedia “boleia”.

 De outras comunicações, estava Salvaterra bem provida. Uma primitiva estação de correios e telégrafos, na rua Machado Santos, sob a chefia de Celeste Filippe da Silva, com um distribuidor de cartas; João Ignácio Serra Faria e um Guarda-fios; Paulino de Oliveira.

 Sendo a estação de 2ª classe, mudou mais tarde para um antigo edifício manuelino, próximo da capela real, alargando os seus serviços nas áreas das encomendas postais, valores declarados e à cobrança. No campo social, Salvaterra de Magos, tinha escolhido para feriado municipal no concelho, de acordo com os seus hábitos rurais, a Quinta-Feira de Ascensão. Era neste dia que toda a população rural e urbana, se juntava, no campo e em ambiente familiar , gozavam a passagem do dia. Os lavradores, em ambiente de grande confraternização, não deixavam de pagar os petiscos e bebidas dos seus assalariados, e  no final do dia, em alegres cantorias, no regresso a casa, as moças, faziam um ramo de espigas de trigo, cevada e centeio (cereais já maduros na época) a que juntavam papoilas e outras flores que já abundavam nos campos, guardando em casa para renovação no ano seguinte. A sua Feira Anual, tinha lugar no 3º Domingo de Maio e prolongava-se até quinta-feira seguinte. Além das diversões, as bancas de quinquilharias, calçado e roupas., as fotografias de família, tiravam-se aí em barracas especializadas, pois seria uma recordação para o resto das suas vidas. Naquele tempo de transacções, aí comprava-se e vendia-se produtos agrícolas, como as cabeças de gado. O suíno, a cabra e ovelha, sendo muito procurados, pelas gentes Foreiras; de Marinhais, Glória e Foros, levou a que o executivo da camara municipal, na época chefiada pelo Administrador José Eugénio de Menezes, que tinha como chefe de secretaria e secretario; Calor Novaes Barreiros, assessorados pelos Amanuenses; Júlio Cesar da Silva e Miguel de Sousa Ramalho. A tesouraria, estava a cargo de António Emiliano Garrido da Silva e o Continuo: Joaquim Lopes. O chefe do executivo, ponderou uma exigência feita, para o início de um Mercado mensal, em Marinhais. Tal decisão, foi obtida anos mais tarde, deixando-se de realizar na sede do concelho, o negócio do gado.

 

 

 

 

 A vila de Salvaterra, estava bem provida de artesãos. Havia mestres-carpinteiros com oficina para construções urbanas e feitura de carroçaria. Operários credenciados como: António Henrique Alexandre, Carlos Almeida, Manoel Cordeiro, Vicente Augusto Ferreira, eram os mais solicitados.

No aluguer de Carroças e Charretes, estas tirantadas a um ou dois animais; Augusto da Silva, Bernardino da Silva, José de Sousa Torroaes, Francisco da Thomázia, Francisco Tabaco e Victorino Miguel, alugavam estes meios de carga e transporte.  Os Ferreiros, como: António Fungão, Francisco Gonçalves, João Augusto Borrego e José Sabino de Assis, encarregavam-se da construção de veículos, onde o ferro entrava, também se encarregavam na feitura de portões e de alfaias agrícolas. Foram  artesãos que deixaram a sua arte, nos desenhos da ferraria, que ainda pululam nas varandas das ruas da vila antiga.

 Na confecção da roupa, para além das Costureiras que vestiam o povo, no seu traje peculiar, existiam os Alfaiates; Constantino da Silva Gomes, Manoel Codima e Manuel Mendes dos Santos, para as gentes da urbe.

 Os Barbeiros; sendo considerados industriais, tinham porta aberta; António de Sousa Marques, Cesar Augusto, José Miguel Borrego, Justiniano Dias Valente e Pedro de Sousa Marques. A clientela rural, era atendida à segunda-feira, pois era nesse dia que ainda estava na vila, depois do regresso do campo, após uma ausência de 15 dias ou um mês.

 

 

 

Os artesãos-sapateiros, fechavam portas para descanso à segunda-feira, enquanto o comércio tradicional, tinha descanso às quintas-feiras. Os lavradores da vila e Foreiros, para ferrarem os seus animais de carga, recorriam aos serviços dos Ferradores; António Marques e Manoel Caetano Doutor. Os Bancos e Seguradoras, como o Crédito Agrícola estavam bem representados, na vila de Salvaterra de Magos, assegurando à população com agências, numa constante actividade económica. O Banco Comercial do Porto: Roberto & Roberto – Banco de Portugal, Banco Borges & Irmão e Portuguez e Brasileiro; Gomes Leite * Seguros; Alliance: Roberto da Fonseca Júnior, Commercio e Industria: António Emiliano Garrido da Silva Lisbonense; Francisco Maria Gomes Leite. A Caixa de Crédito Agrícola Mutuo, satisfazendo uma necessidade constante junto da lavoura, tinha nos seus órgãos constituídos; José Eugénio de Menezes (Presidente), Roberto da Fonseca Júnior (Secretário), Henrique Avelar da Costa Freire (Tesoureiro).

 

Fotos:  Rua do Calvário, ano 1931 * Diligência de Transportes Públicos, tirantada a dois animais * Grupo de Carroceiros * Ferrador - António Ferreira Cipriano

Nota: In – Publicação “Anuário Comercial de Portugal – Ano 1931”

 

Texto original para este Blogue:

JOSÉ GAMEIRO

publicado por historiadesalvaterra às 11:32
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3 comentários:
De Fatima Cipriano a 8 de Agosto de 2012 às 14:55
Boa tarde Sr. José Gameiro!

A Foto que aparece, não é o meu avó, mas sim o meu pai, o ferrador Antonio Ferreira Cipriano.

Cumprimentos
Fatima Cipriano


De historiadesalvaterra a 8 de Agosto de 2012 às 16:33
Olá, Fatima Cipriano

Pela informação prestada - Agradeço.

Em baixo do Post Fotos publicadas, a retificação foi feita: António Ferreira Cipriano
Cumprimentos
José Gameiro


De Felipa Mourato a 29 de Agosto de 2012 às 16:09
Boa tarde José Gameiro,
Estou a contactá-lo da SIC preciso de falar consigo. Pode contactar-me, pf? O meu tlm é 912503716



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