Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

OS TRANSPORTES PÚBLICOS DE PASSAGEIROS !!!

 

                               O MEU CONTRUBUTO
 
Por volta de 1952 a curiosidade e a brincadeira na rua eram muita !
 
 Em frente da Igreja Matriz, estacionavam as camionetas da carreira, durante largas horas.  Eu, como todo o rapazio de idade escolar, atrevíamo-nos a subir a pequena escada em ferro, da parte de trás, que dava acesso ao tejadilho daqueles veículos.     Ali, era o espaço onde se armazenavam as bagagens dos passageiros e as mercadorias, em trânsito para outras terras, depois de cobertas por uma grande rede. 
 
Quem diria que, meia dúzia de anos depois, viria a ter que subir daquelas escadas, várias vezes ao dia e durante anos, por obrigação, pois foi na empresa de transportes pública de passageiros, que iniciei a minha vida profissional, tinha então 13 anos de idade.  Na “Central”, tive ocasião de ouvir relatos passageiros idosos, cujas histórias de velhos hábitos de transporte, me encantavam e, que há muito estavam esquecidas nas suas memórias. Fui tomando boa nota delas, pois ficariam perdidas e, agora chegou a vez de aqui as registar.
Aqui vai para que conste !
 
                                                    I
                 
                                  A VALA REAL, UMA VIA DE TRANSPORTES
 
Salvaterra de Magos, é uma povoação situada junto à margem esquerda do rio Tejo, em pleno coração da Lezíria ribatejana e, pelos Forais que recebeu o povo teve a obrigação de abrir uma vala, que escoasse as águas que se acumulavam nas suas terras pantanosas.
Já no séc. XIII, para Santarém, os caminhantes a pé e a cavalo, usavam um caminho do tamanho de cinco léguas, que atravessava o campo, a antiga estrada do meio, logo à saída da ponte da vala da vila, saindo para lá de Almeirim, muito próximo do rio Tejo, com a cidade de Santarém à vista.
 
As viagens, através do campo eram penosas e demoradas, em charretes, puxadas a um ou dois cavalos.  Dando realce a alguns relatos do séc. XVIII, o paço real de Salvaterra de Magos recebia com frequência a presença da realeza, o que dava uma nova vida à povoação, pois fazia dela um grande centro de movimento cultural e político.
 
 As viagens de e para Lisboa pelo rio, nas embarcações, especialmente em Bergantim, pelo elevado numero viajantes, levava a que se forma-se um transporte colectivo de passageiros, sendo  os seus convidados entretidos com um escaparate de músicos. 
 
Os barcos de carga, as fragatas que navegavam diariamente no leito do rio, com mercadorias, no fornecimento à capital do país, ou mesmo a Santarém, eram aproveitados pelo povo para uma “boleia” para aquelas cidades.     Até aos meados do século XX, ainda era usado este sistema de viagem, especialmente pela população mais pobre, sendo o Poço do Bispo, em Lisboa, quase sempre o local de destino.  Em dias de vento favorável, as viagens duravam entre 3 a 4 horas, em barcos pequenos, como as faluas.
 
 
                                        II
    OS TRANPORTES PUBLICOS DE PASSAGEIROS
 
 A hora dos transportes públicos colectivos de passageiros, chegou a Salvaterra de Magos, por volta de 1920, com um membro da família Torroaes, a utilizar uma carruagem do tipo, Rippert, puxada por dois animais da raça cavalar.
 
 O único caminho existente até ao Pontão do Cabo, para o acesso a Vila Franca de Xira, era a estrada do Convento, e o campo de Benavente, com saída no Gado Bravo.
 Em 1933, a empresa daquela família, substituiu o antigo transporte de diligência, por uma pequena e moderna viatura automóvel com capacidade para 12 passageiros.  A sua sede, era numa casa no Largo da Igreja Matriz, situada no lado da sua torre, mesmo à estrada da rua Dr. Gregório Fernandes, onde está instalada agora uma relogoaria.  De início, a camioneta da carreira ia a casa dos passageiros, pois estes já previamente tinham marcado viagem, passando depois a ter local próprio - O Largo da Igreja Matriz.
 
 A exploração deste serviço público de passageiros, em 1935, foi vendida a Alfredo da Piedade (Alfredo Calafate), antigo calafate de embarcações navais.
 Este novo empresário, colocou ao serviço, dos passageiros, mais uma viatura Fiat Modelo T, com destino à estação dos caminhos-de-ferro, em Muge, dando assim início ao aparecimento da Empresa de Viação Salvaterrense, Ldª.
 
Um dos motoristas daquelas viaturas, João Pedro de Jesus Silva, homem de poucas letras, que veio dos lados de Santarém, passou a ser conhecido pelo “João Chaufeur”.
  “Contava-se, muitas estórias sobre este motorista, retiramos uma:   Ao informar das contas do serviço prestado no dia, tinha uma forma peculiar de o fazer, quanto à quantidade passageiros transportados: Se o total fosse 10 – eram identificados assim: três homens, duas mulheres, três velhos, um rapaz e um polícia”
 
                                                  AS GARAGENS
 
Num antigo espaço do palácio real, agora Largo dos Combatentes, sendo aproveitada muita da sua pedra, foi construído um grande edifício, ali junto às antigas chaminés, que mais tarde veio a ser adega, serviu de garagem, entre os vários sítios, que houve na vila para recolha das camionetas da carreira.
 
                             O TRANSPORTE DE PASSAGEIROS EM TÁXI
 Naquela época já a população tinha ao seu dispor, um carro de aluguer (taxi) de 5 passageiros, da marca Ford, mais tarde substituído por um da marca BuicK, modelo descapotável.  Era seu condutor, Mário Luís das Neves, mais conhecido pelo Mário Puto, devido à sua pequena estatura. 
 Com o decorrer dos tempos, vários alvarás (licenças), foram passados a novos industriais do ramo, sendo hábito o passageiro ir a casa do taxista, requisitar a viatura para a sua deslocação, costume que foi mudando com a instalação da “praça”, no Largo dos Combatentes, num espaço que a câmara municipal, atribuiu, onde aguardavam os passageiros.
A vila, passou a ter ao seu serviço mais algumas viaturas ligeiras de passageiros, pertencentes aos novos empresários: Amadeu Eduardo da Silva (o Amadeu Carteirista) João Cardoso, também conhecido pelo nome de João Boneco, e os irmãos, Manuel e João Oliveira (Capadão). 
 A exploração do alvará das carreiras, foi cedido à então criada Empresa de Viação Benaventense, Ldª, (da família Anastácio), com sede na vizinha vila de Benavente. Esta empresa por volta de 1948, negociou com a Empresa de João Cândido Belo & Irmãos, Ldª, de Vila Fresca de Azeitão (Setúbal), o alvará de exploração nesta vasta zona ribatejana.
 Após a inauguração da ponte, em 1951, o acesso ao comboio, em Vila Franca, passou a ser de grande importância, e a Transportadora Setubalense, soube aproveitá-lo alargando assim o âmbito da sua exploração do serviço público de passageiros, para várias zonas do país.
 
Entre os vários percursos nesta zona, tinha: Coruche/ Vila Franca de Xira, Vila Franca de Xira/Glória do Ribatejo, Benavente/Muge. Dos vários itinerários, que passavam por Salvaterra de Magos, o primeiro horário, era à 6,30 da manhã, vindo de Coruche, enquanto o último ia para a Glória do Ribatejo, passava às 22,30 horas.
 Para Santarém, as ligações faziam-se junto à estação de Muge, com a Empresa de Camionagem Ribatejana, com sede naquela cidade.  A ligação com Évora, procedia-se através de Coruche, ficando Mora no caminho para aquela cidade alentejana. O destino para o Algarve, tinha a viagem assegurada através da Empresa de Viação do Algarve (EVA). Lisboa, passou a ser um destino directo, quando da abertura da auto-estrada A1, completando -se um ciclo que já abrangia Setúbal.
 
                                                          III
 
                                                              A  NOVA CENTRAL
A Setubalense, manteve o velho contrato existente com os caminhos de ferro – CP, com o intercâmbio na estação de Muge, cuja Central de mercadorias e passageiros, estava numa pequena casa no início da rua Trás-da-Igreja   Em 1956, mudou os serviços para a rua Heróis de Chaves ocupando uma casa alugada (1), à família Vieira Lopes. O jovem empregado ali de serviço apresentava-se devidamente fardado, tal como os motoristas e cobradores, como era uso e obrigatório na época.
 O local de paragem das viaturas, passou a efectuar-se no Largo dos Combatentes (junto à escola primária).
Um outro tipo de movimento de mercadorias (pequenas embalagens) a transportar nas carreiras passou a ser movimentado no Café Ribatejano fazendo a tarefa dos despachos o seu empregado de balcão, José Tiago Andrónico.
 Neste tempo, existia um homem que, fazia duas vezes por semana, o trabalho de comprar em Lisboa pequenas produtos, sendo esperado à chegada da carreira, para as respectivas entregas e recebendo novas encomendas, era o Estafeta Victor, de Vila Franca de Xira.
 
 Em 1957, a paragem das carreiras passou para a “Central”, na rua Heróis de Chaves, até porque a vila tinha pouco movimento automóvel e, naquela rua, pouco mais passava do que meia dúzia de carros ligeiros ao longo do dia.  Em 1963, com o início das obras levadas a cabo pela família Vieira Lopes, que transformou aquele seu velho espaço de casario (ainda restos de instalações pertencentes ao palácio real), numa nova urbanização. A construção incluiu três andares, para habitações, e o piso térreo, foi aproveitado para área comercial e serviços, sendo um espaço expressamente construído para a estação.  Enquanto durou a construção da obra, a “Central”, esteve provisoriamente no Largo dos Combatentes, na antiga taberna daquela família, e ainda mantinha os seus vestígios.
 
                                         INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO DE CAMIONAGEM
 
 No dia 4 de Abril de 1964, teve lugar a inauguração das novas instalações da nova “Central” ou Estação de Camionagem, (ocupando o mesmo espaço térreo que tinha a antiga moradia). As mercadorias, eram agora todas movimentadas a partir daquele local.  Os veículos transportavam os passageiros e suas bagagens., as bicicletas que eram o transporte da época do trabalhador rural., eram colocadas no tejadilho dos carros, cobertas por uma grande rede de corda.
 
Os horários, nunca eram cumpridos, o tempo que em cada localidade levava a carregar e descarregar as mercadorias, muitas vezes de toneladas, era um trabalho penosos, de todo o pessoal, onde os “Cobradores” eram os mais atingidos, pois tinham de arrumar conforme as localidades ainda a percorrer.
 
O descarregar ferro (chapas e barras), vindo de um armazém em Vila Franca, para as oficinas de ferreiros, carregar madeira (portas e janelas para habitações), Marinhais, Glória e Foros de Salvaterra, era um trabalho diário, pois as carpintarias aqui instaladas, também usavam este meio de transporte.
 
A empresa Setubalense, continuava a alargar a sua influência nesta área de transportes, adquirindo os Alvarás da Camionagem Ribatejana(Santarém), Empresa Martins,de Évora, entre outras.  Com as transformações verificadas após a revolução de Abril de 1974, a Transportadora Setubalense, como muitas outras no país, foi alvo das nacionalizações, dando origem a uma única : A Rodoviária Nacional – RN. 
 Anos depois, desmembrada esta em pequenas empresas, por via das privatizações, Salvaterra de Magos, ficou servida pela nova empresa, denominada “Belos” que, mais tarde deu lugar a uma outra, a “Ribatejana”, que agora serve as povoações da zona.
 
                                                                                *****
 Nota:  A fechar este pequeno Apontamento histórico, dos transportes públicos de passageiros, em Salvaterra de Magos,  muitas estórias conhecidas, ficaram por nele incluir, como aquelas da Rosa Senair, no entanto não deixamos  de dar  nota, daquela dos despachos dos cestos das galinhas para Lisboa, atravéd do caminho de ferro, ligação em Muge.
 O negociante do ramo, José Ferreira (José Caramelo) pai do escritor José Silva Ferreira,  nos despachos dos cestos, quantificava as aves,  mas à partida alguém fazia “surripar” uma galinha, para um petisco da rapaziada, mas à chegada  estava sempre certo !
A razão: José Caramelo tinha dificuldade em contar e, pedia ao empregado da Central para contar as aves que iriam viajar, este contava sempre uma a menos,  fazendo o negociante a reposição  da quantidade pretendida para despacho.
 
 ********
(1) - Casa onde nasceu o autor
 *  Extraído do Livro de Apontamentos Nº 13 da Colecção "Recordar, Também é Reconstruir !!" - 1997 * Do Autor
 
                                       JOSÉ GAMEIRO
                                        
 
 
 
 
publicado por historiadesalvaterra às 17:03
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